Obra "Arquitetura da Água na Freguesia da Misericórdia" conta uma história de Lisboa

A obra "Arquitetura da Água na Freguesia da Misericórdia", de Paulo Figueiredo, que aborda a história do abastecimento à cidade, e "a importância da água como bem público", é apresentada na próxima segunda-feira, em Lisboa.

"Esta obra aborda a importância da água como bem público e elemento de primeira necessidade, os caminhos do abastecimento da água a Lisboa e o seu reflexo na freguesia lisboeta da Misericórdia, nas bicas e chafarizes, os Banhos de S. Paulo, o Reservatório da Patriarcal, no Príncipe Real, entre outros, no seu contexto histórico e sociológico, na cidade de Lisboa", explicou à agência Lusa o investigador Paulo Figueiredo.

A apresentação da obra, na segunda-feira, às 18:30, no Espaço Santa Catarina (Palácio Cabral), em Lisboa, estará a cargo de Ana Madureira, especialista em literatura, autora de várias publicações, ex-professora no King's College, em Londres, e Mário Torres, investigador nas áreas de Arqueologia e História da Antiguidade e Arquitetura Paisagista

A ordenação urbana de Lisboa e parte da sua arquitetura revela a relação que a cidade desenvolveu com a necessidade básica de água, disse o ensaísta.

A obra, "Arquitetura da Água na Freguesia da Misericórdia", é uma iniciativa editorial desta junta de freguesia lisboeta, no âmbito do Ano Europeu do Património Cultural, e escolheu a água, que "é um bem valioso, sem o qual não há vida, pela sua dimensão cultural, simbólica, espiritual e paisagística", disse Paulo Figueiredo.

O investigador afirmou à Lusa que aborda a questão da água em Lisboa, desde o abastecimento no tempo do Império Romano, passando pelo grande investimento que foi o Aqueduto das Águas Livres, no século XVIII, e que abasteceu a capital até 1967, as preocupações sanitárias no século XIX, até aos dias de hoje, com atenção especial à Freguesia da Misericórdia.

A cidade é "marcada, desde logo, pelo seu relevo ribeirinho e por um certo número de linhas de água que desaguavam em enseadas imperfeitas", disse Paulo Figueiredo, autor do "Dicionário de Termos Arqueológicos".

Referindo-se ao perímetro da freguesia, o investigador referiu que "há uma panóplia monumental riquíssima". "Desde logo os chafarizes que abasteciam o Príncipe Real, Bairro Alto, Bica e S. Paulo, e as respetivas condutas que atravessam a zona do Príncipe Real, onde se encontra o denominado reservatório da patriarcal, e o Bairro Alto. Há o emblemático chafariz da rua d'O Século, os dois chafarizes no miradouro de S. Pedro de Alcântara, um que abastecia S. Bento, na rua do mesmo nome, onde existiu um arco, que se encontra atualmente na Praça de Espanha".

Entre os chafarizes desta freguesia lisboeta, destacou o autor "a bica da Boavista, na rua da Boavista, uma das mais antigas, onde antes do nascer do sol as pessoas iam ali 'lavar as vistas', e uma placa do século XVI faz testemunho deste uso, onde está inscrito que o proprietário é obrigado a deixar usar a água gratuitamente". Uma prática que foi caindo em desuso a partir de princípios do século XX.

O investigador adiantou que um dos edifícios referenciados é o dos Banhos de S. Paulo, "os banhos termais, cujas nascentes vinham da Praça do Comércio, onde hoje se encontram as instalações da Marinha, e algumas destas nascentes têm origem em Alfama".

Estes banhos, "com fins terapêuticos, dermatológicos, foram utilizados como públicos até 1973/74, altura em que foram encerrados, e, atualmente, o edifício é a sede da Ordem dos Arquitetos".

Paulo Figueiredo é autor de várias obras, entre as quais, o primeiro "Dicionário de Termos Arqueológicos" (2004), "Alvalade, o Bairro da Vanguarda" (2003), "Movimento associativo de Carnide" (2005), "Grupo Teatro Carnide" (2007) e a "Monografia da Freguesia do Sacramento" (2013).

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