Modernidade da Bauhaus de Dessau continua a destacar-se passados cem anos

Cem anos depois de surgir a primeira escola Bauhaus, na Alemanha, o edifício de Dessau, onde atualmente funciona a Fundação Bauhaus, continua a destacar-se na avenida com o nome do seu fundador, Walter Gropius.

É preciso ver uma fotografia de época, a preto e branco, para se acreditar que, à frente do edifício-sede paravam, há praticamente cem anos, cavalos e carroças que conduziam os alunos a viagens de estudo. Porque se hoje o experimentalismo da Bauhaus ainda surpreende, há um século chegou mesmo a ser arrebatador.

Não tem princípio, nem fim. Não tem um telhado convencional. O vidro domina, num edifício "onde não sobra nada, não há nada a mais", começa por explicar uma das guias da fundação, sublinhando que isso "não lhe retira nem um bocadinho de elegância".

A escola Bauhaus foi fundada na cidade de Weimar mas, com a chegada ao poder do partido Nazi ao estado da Turíngia, o financiamento foi fortemente reduzido, o que obrigou Gropius a procurar outro destino. As ofertas foram muitas, mas o diretor da escola escolheu Dessau pela liberdade que o município lhe ofereceu. Na zona onde foi construída não existia nada, mas, a partir de 1926, altura em que abriu portas, encheu-se de vida.

Depois de passar a porta vermelha é preciso subir alguns degraus para chegar ao hall de entrada. No teto, uns candeeiros de metal, desenhados por um estudante polaco, cumprem a função de iluminar, "elegantes, mas que seguem a filosofia do 'nada extra'", recorda a guia norte-americana Jenne Korgen.

A escola modernista, que explorava novas formas de arte, arquitetura, design, fotografia e artes performativas, teve mais de uma centena e meia de alunos, mas apenas 28 podiam viver nas suas instalações. Mas a Bauhaus "não era apenas uma escola, era uma forma de vida", recorda a guia, antes de abrir as portas do grande auditório.

As paredes, junto às portas, têm um buraco para que, ao abri-las, a maçaneta possa encaixar, poupando o maior espaço possível e obedecendo a um rigor geométrico. Jenne vai chamando a atenção para os detalhes que vão passando despercebidos. A ideia é mesmo essa, revela, tudo estava feito para ser útil, sem grandes exibicionismos.

Resta pouco de original neste espaço, depois de ter sido parcialmente destruído durante um ataque aéreo na II Guerra Mundial. Os aquecedores, pendurados a meio da parede, ainda são os da época. Ocupam propositadamente o lugar onde habitualmente estão quadros para mostrar que a arquitetura vale por si só.

Há uma cortina de vidro que cobre os três pisos superiores da escola, formada por pequenas janelas que se abrem ao puxar uma corrente. Não há separação entre os andares deixando circular o som, "e também a poeira", acrescenta a guia. Como há uma espécie de separação entre o chão e o próprio edifício, quando está escuro lá fora e o interior está iluminado, parece que a escola flutua, descreve.

Nas escadas, Jenne Korgen mostra o sítio que serviu de inspiração ao quadro pintado por Oskar Schlemmer, em 1932, "Die Bauhaustreppe" "As Escadas da Bauhaus"), que pode ser visto no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, cidade destino de alguns mestres da escola, depois de fechar portas em 1933.

É a meio da ponte que liga as duas partes do edifício, onde o chão faz barulho ao passar, que está o antigo escritório do fundador e diretor da escola Bauhaus, um homem que "acreditava e defendia o trabalho coletivo, mas que queria ter a última palavra". O gabinete conheceria mais dois diretores (Hannes Meyer e Mies van der Rohe), antes do fim da escola, ditado pelo regime de Hitler.

Nas salas de aula, ali ao lado, os armários podiam ser abertos por dentro e por fora, nos corredores. Cada piso tinha uma cor diferente para que pudesse ser facilmente identificado. Por esta escola, onde os professores eram mestres, ensinaram nomes como László Moholy-Nagy, Lyonel Feininger, George Muche, Oskar Schlemmer, Wassily Kandinsky ou Paul Klee.

Na cantina, separada do auditório por uma grande porta de correr, meia dúzia de pessoas almoçam. Pode ser usada por qualquer pessoa, tal como boa parte do edifício é de livre acesso. A guia senta-se num banco que puxa de debaixo de uma mesa.

"Mais uma vez a eficiência do espaço", explica. "Como as mesas eram mais altas, obrigavam a comer com as costas direitas e as cadeiras não precisavam de costas", continua. "Este espaço era fundamental para boa parte dos alunos, muitos deles muito pobres que só aqui conseguiam comer", revela Jenne Korgen.

A fachada da residência de estudantes está a ser restaurada, tal como as casas dos mestres, no fundo da avenida, a poucos mais de 500 metros. Cada quarto dos alunos que ali viviam tinha 20 m2, um lavatório, uma grande mesa de trabalho, armário embutido e um compartimento de arrumação em cima da cama, tudo novidades na altura.

Os quartos podem ser alugados, tal como as salas, o auditório ou praticamente qualquer parte do edifício, considerado em 1996 Património Histórico da Humanidade pela UNESCO.

À volta há uma zona residencial, um hospital, uma escola e uma farmácia, mas o edifício da Bauhaus, mesmo que não tivesse as famosas letras brancas que o identificam, continua a destacar-se, mesmo para quem não lhe conhece o significado.

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