Jornalista diz que a imigração é uma ferramenta de poder na política

O jornalista italo-argentino Roberto Savio defendeu hoje, em Lisboa, que a imigração se tornou uma ferramenta de poder na política, nomeadamente por movimentos e partidos que se aproveitam e também promovem o medo contra os imigrantes.

"A imigração tornou-se uma ferramenta de poder na política", disse Savio, que é ainda economista, ativista e fundou a agência de notícias Inter Press Service (IPS) em 1964 com o jornalista argentino Pablo Piacentini.

O jornalista fez estas declarações no XIII Congresso Internacional do Conselho Português para os Refugiados (CPR), que ocorreu hoje na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Roberto Savio afirmou ainda que existe "uma perceção sobre a imigração diferente da realidade", nomeadamente na Europa, sendo que esta perceção (negativa) é aproveitada por alguns movimentos para incutir o medo e manipular a opinião das pessoas contra os imigrantes.

O italo-argentino citou exemplos do ressurgimento de discursos xenófobos e anti-imigração em países como a Suécia, Itália, Hungria e os Estados Unidos.

"Vivemos 20 anos de ganância, entre 1989 e 2009, e agora viveremos 20 anos de medo", avaliou o jornalista.

Savio referiu que "entre 1989 e 2009 o mundo experimentou um período voltado para o mercado, para a ganância financeira", com os bancos a liderar e manipular a economia.

"Os governos voltaram-se para o mercado como motor do mundo e temas importantes como a saúde, educação, assistência social foram deixados de lado", sublinhou.

Segundo o jornalista, estamos a viver uma crise de valores.

Os valores mais enraizados, como por exemplo a solidariedade e justiça social, foram banidos do debate e, segundo o italo-argentino, estamos também a perder a noção da política como elemento de participação.

"Os jovens hoje em dia também estão agarrados à tecnologia e não debatem, não discutem os temas realmente importantes da sociedade", indicou.

O jornalista criticou também os meios de comunicação, que publicam apenas "eventos, deixando de analisar todo o processo de um determinado assunto, não possibilitando às pessoas uma visão global".

Lembrou a crise dos refugiados dos últimos anos, nomeadamente a fuga dos sírios do conflito no seu país, o que levou a uma reação de medo sobretudo na Europa, com o fluxo avassalador a chegar ao continente.

"Nos próximos 20 anos viveremos o medo", referiu, lembrando ainda que, mesmo países tradicionalmente com alto grau civilizacional, como a Suécia, viram surgir movimentos anti-imigração e xenófobos.

O jornalista afirmou que temos de lidar com estes medos e voltar a colocar na pauta do debate, a todos os níveis, os valores que foram deixados para trás, como a solidariedade, a justiça social, temas ligados a educação, participação política, entre outros.

Se isso não acontecer, segundo Savio, "haverá um aumento da xenofobia, o declínio da democracia participativa e o bloqueio total da imigração".

"Ao fechar as portas à imigração, criamos um problema maior, pois a Europa está a perder capital humano e a imigração é a principal forma para recuperar esta mão-de-obra", referiu, indicando que sem imigrantes, a Europa deixará de ser competitiva no mercado internacional.

Roberto Savio disse que "vivemos um período de mitos e manipulações em relação a temas como a imigração".

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