Uso de técnicas de distração para aliviar dor nas crianças deve ser generalizado - especialista

Estratégias simples para aliviar a dor nas crianças, como bolinhas de sabão ou o colo dos pais, devem ser usadas por todos os profissionais de saúde, defendeu uma especialista, lamentando que estas práticas ainda não estejam generalizadas.

"A medicina está bastante evoluída, fazem-se tratamentos, intervenções com tecnologia bastante sofisticada, cada vez se curam mais e se diagnosticam mais as doenças, mas depois há determinados aspetos humanos e éticos que acabam por ficar um bocadinho esquecidos" como minorar a dor, disse em entrevista à agência Lusa Clara Abadesso, pediatra e coordenadora do Grupo de Dor da Criança e Adolescente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED).

Para Clara Abadesso, ainda se faz pouco nos serviços de saúde em relação ao que podia ser feito: "não quer dizer que não se trate a dor, mas, se calhar, não se estão a utilizar todas as estratégias que podem ser utilizadas e que está demonstrado que são eficazes".

"É como se existisse um hiato entre o que evidência científica já demonstrou que é eficaz e que se pode fazer para controlar a dor e o que é feito na prática. É esse hiato que temos de reduzir e fazer desaparecer", defendeu.

Para sensibilizar os profissionais de saúde, os pais e a comunidade para esta problemática, a APED promoveu uma exposição sobre a Dor em Pediatria ("Desenhos da Minha Dor"), que foi inaugurada há um ano em Coimbra e está a circular por todos os hospitais do país. Neste momento está patente no Hospital Amadora-Sintra até quarta-feira e será também exposta na XVI Reunião Iberoamericana de dor e VI congresso da APED, que decorre de 11 a 13 de outubro em Lisboa.

A exposição, composta por 21 painéis, nasceu do concurso promovido pela APED desde 2005 "Vou desenhar a minha dor", em que as crianças hospitalizadas são desafiadas a retratar a sua experiência de dor, e vai agora ser transformada num pequeno livro para ser distribuído nos serviços de saúde para a informação poder chegar mais longe.

"Tínhamos desenhos lindíssimos que retratam bem os aspetos multidimensionais do que é a experiência de dor, e são bem elucidativos e mostram que as crianças também sentem dor", disse Clara Abadesso.

Até há pouco tempo, existia a ideia de que os bebés e sobretudo os prematuros não sentiam a dor como os adultos, porque o sistema nervoso ainda não estava completamente desenvolvido, mas "a investigação científica já demonstrou que é totalmente errado".

Para o tratamento da dor, existem três tipos de estratégias: farmacológicas, físicas e psicológicas. "Uma criança que precisa de pôr um cateter, que precisa de fazer uma colheita de sangue, se estiver posicionada ao colo dos pais vai reagir de uma forma muito diferente do que se estiver numa maca a ser segurada por várias pessoas", exemplificou.

Outras "estratégias muito simples" passam por deixar as crianças fazerem bolinhas de sabão, soprarem um moinho de vento ou aprenderem a respirar fundo para relaxar e libertar a tensão e a ansiedade, disse Clara Abadesso, defendendo que estas técnicas devem ser utilizadas porque vão "desviar o foco da criança em relação ao procedimento que lhe vai causar dor".

A hipnose também pode ser aplicada através de alguns exercícios como a luva mágica ou incentivar a criança a viajar ao seu lugar favorito através do pensamento, para ela ir "experienciando" o que vê, o que cheira, o que sente e o que ouve.

"A criança está tão absorvida nessa experiência que acaba por entrar num estado de transe e as situações exteriores acabam por perder a importância", contou.

Clara Abadesso está a desenvolver uma consulta de dor crónica pediátrica no Hospital Amadora-Sintra para ajudar as crianças e adolescentes que sofrem deste problema, que está ainda subdiagnosticado, subvalorizado e subtratado.

"Muitas vezes essas crianças andam perdidas entre várias consultas à procura de uma resposta para a sua dor", lamentou.

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