TACV, de ativo estratégico para Cabo Verde a prejuízos de 100 milhões e saída do mercado doméstico

A companhia aérea pública cabo-verdiana (TACV) surgiu há 60 anos como um ativo estratégico no país, mas a acumulação de dívidas e erros de gestão resultaram na saída, a partir de agosto, das operações domésticas.

Os Transportes Aéreos de Cabo Verde (TACV), também conhecida como Cabo Verde Airlines, foram fundados em 1958, tendo até 1984 operado apenas nas ligações domésticas.

No ano seguinte, iniciou as ligações internacionais com a abertura da linha Sal - Lisboa - Sal, tendo gradualmente conquistado novos mercados também a nível regional.

É considerada uma das companhias aéreas mais seguras do mundo, a única dos países africanos de língua portuguesa com autorização para voar para os Estados Unidos e sem qualquer restrição para escalar os aeroportos europeus.

Membro ativo da Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA) desde 2009, a companhia de bandeira, detida 100% pelo Estado, desempenhou um papel estratégico nas ilhas, mas também na aproximação aos milhares de cabo-verdianos espalhados pelo mundo.

Até há menos de um ano como a única transportadora inter ilhas, a empresa começou há alguns anos a enfrentar vários problemas, com o acumular de dívidas, cancelamentos e atrasos recorrentes nos voos, provocando muitas reclamações.

Com mais de 500 trabalhadores, a empresa custa, segundo o Governo, um milhão de euros por mês aos contribuintes cabo-verdianos e, em 2015, tinha uma dívida de mais de 100 milhões de euros.

Enfrentando problemas financeiros e operacionais, em dezembro de 2015, a TACV foi suspensa da Câmara de Pagamentos da IATA, por atrasos nos pagamentos aos fornecedores. A empresa foi depois readmitida na organização internacional, mas a suspensão causou danos à sua imagem.

Dois meses depois, um aparelho Boeing da companhia foi arrestado no aeroporto de Amesterdão (Holanda), por causa do não pagamento das prestações relativas ao 'leasing' (arrendamento) de um dos aviões.

Os parceiros internacionais de Cabo Verde representados no Grupo de Apoio Orçamental (GAO), que incluiu Portugal e instituições como a União Europeia ou o Banco Mundial, incentivaram várias vezes os governos a procurar medidas para resolver a situação financeira da companhia.

O Governo do Movimento para a Democracia (MpD), saído das eleições de março de 2016, tomou como primeira medida a realização de uma auditoria técnica e financeira para apurar a "verdadeira" situação económica e financeira da empresa, que classificou como "financeiramente falida".

Seis meses depois da tomada de posse do novo Governo, a Binter iniciou as operações domésticas em Cabo Verde, passando a realizar esse serviço em concorrência com a TACV, que até aí tinha o monopólio dos voos entre as ilhas cabo-verdianas.

No dia 23 maio, o ministro da Economia, José Gonçalves, anunciou que, a partir de agosto, a companhia aérea cabo-verdiana vai fechar a operação doméstica, passando os voos a serem assegurados pela Binter Cabo Verde, em cujo capital o Estado cabo-verdiano entrará com 49%.

A Binter Cabo Verde, que tem atualmente como único acionista a empresa Apoyo Y Logistica Industrial Canária, Sociedade Limitada, irá assegurar em exclusividade os voos domésticos no arquipélago, além das ligações com o Senegal e a Guiné-Bissau.

Com esta decisão, a companhia aérea pública deixará de operar no mercado interno, devendo a sua operação internacional ser igualmente reestruturada com vista à privatização.

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