Santana Lopes quer "arejamento" e "furar bloqueios" na política

O ex-primeiro-ministro Pedro Santana Lopes defendeu hoje que a política portuguesa precisa de "arejamento" e de "furar bloqueios", saudando a criação de novos movimentos, mas sem falar sobre o seu futuro.

À entrada para uma conversa à porta fechada sobre o bloqueio do sistema político, organizada pelo Movimento Europa e Liberdade (MEL), em Lisboa, Santana Lopes apontou "alguma cristalização no funcionamento do sistema político e das instituições", mas considerou que a situação não é exclusivamente portuguesa.

"Há uma grande necessidade de arejamento, modernização, novas ideias, novas atitudes", defendeu.

Questionado se já resolveu o seu futuro -- depois de ter anunciado no final de junho que a sua "intervenção política no PSD acabou" -, o antigo líder social-democrata disse que hoje apenas falava "no MEL".

Santana Lopes elogiou uma medida defendida por este movimento, criado em maio e que já apresentou um manifesto: a subida do Salário Mínimo Nacional acima dos padrões previstos "como meio de robustecimento da economia".

"O furar dos bloqueios, dos dogmas, faz muita falta nos tempos atuais", defendeu.

Sobre se pondera aderir ao MEL -- hoje interveio apenas na qualidade de orador, a par do vice-presidente do CDS Adolfo Mesquita Nunes -, Santana respondeu que "nunca pensou nisto".

"Enquanto cidadão, sempre que me convidarem, virei com todo o gosto, oxalá haja muitos movimentos destes", disse.

Mesquita Nunes, o outro orador da conversa que reuniu cerca de duas dezenas de pessoas, disse ter aceitado o convite, em nome individual, para explicar de que forma entende que Portugal pode romper este bloqueio.

"O verdadeiro bloqueio é o modelo socialista de desenvolvimento que temos quase ininterruptamente desde 1995 e o que temos de fazer, se queremos ter Estado Social à escandinava, é ter liberdade económica à escandinava", defendeu.

O antigo deputado considerou que é possível romper esses bloqueios dentro do espaço dos partidos, desde que se "defendam as medidas certas", o que considera estar a acontecer no CDS-PP.

Jorge Marrão, um dos fundadores do MEL e presidente da Associação Missão Crescimento, explicou que o manifesto foi subscrito inicialmente por um conjunto de 74 cidadãos, na maioria independentes, mas também alguns políticos que estão ou estiveram no ativo.

"Consideramos que o sistema político nos últimos 20 anos não foi capaz de criar crescimento sustentado acima da média europeia, daí falarmos de bloqueio do sistema político ao crescimento económico em Portugal", explicou.

O convite para arrancar o ciclo de conversas a Adolfo Mesquita Nunes e Pedro Santana Lopes deveu-se a ambos terem "uma visão rebelde da política".

Jorge Marrão rejeita, contudo, que o MEL possa evoluir para um partido político: "Quem quiser fazer partidos, fará fora do movimento".

O ex-dirigente do PSD José Miguel Júdice, o antigo assessor político dos Presidentes da República Ramalho Eanes e Mário Soares Joaquim Aguiar, o deputado e antigo adjunto de Pedro Passos Coelho Miguel Morgado e o dirigente do CDS Francisco Mendes da Silva são alguns dos subscritores do manifesto.

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