REPORTAGEM: Regime chinês conseguiu ocultar furos deixados por balas de Tiananmen

Pequim, 25 mai 2019 (Lusa) - Nascido em 1989, o chinês Jiahao só soube passadas quase três décadas, quando estudava nos EUA, que a 04 de junho daquele ano o exército do seu país matou centenas de estudantes que exigiam reformas políticas.

Após pesquisar no Google - motor de busca bloqueado na China -, ele entendeu finalmente o "misto de curiosidade e cautela" com que os seus colegas norte-americanos lhe perguntavam o que achava do 04 de junho de 1989.

"Até então, respondia sempre com uma pergunta: mas o que se passou nesse dia?", recorda à agência Lusa.

Iniciado por estudantes da Universidade de Pequim, o movimento pró-democracia da Praça Tiananmen foi esmagado na noite de 03 para 04 de junho de 1989, quando os tanques do exército foram enviados para pôr fim a sete semanas de protestos.

Aquele período produziu uma das mais icónicas fotografias do século XX - a imagem de um homem a bloquear a passagem de um tanque -, mas que continua praticamente desconhecida no país onde foi registada.

"A China tem sido notavelmente bem-sucedida em eliminar a memória da repressão", explica Louisa Lim, autora do livro "The People's Republic of Amnesia: Tiananmen Revisited", à Lusa.

Durante o seu trabalho de investigação, em 2014, Lim admite ter ficado "chocada com o nível de ignorância sobre as mortes dos estudantes".

A educação patriótica promovida após o massacre desviou também a atenção das novas gerações chinesas para as preocupações económicas, em detrimento das políticas.

Muitos jovens na China têm hoje outras prioridades, "mais tangíveis", como "encontrar emprego ou comprar uma casa", aponta Lim.

O contrato social selado entre o Partido Comunista e o povo chinês é claro: o partido mantém uma autoridade indisputada e os privilégios da elite dominante e, em troca, assegura o crescimento económico, melhoria dos padrões de vida e elevação do estatuto global do país.

As autoridades defendem mesmo que a ação do Governo, em 1989, foi necessária para abrir caminho ao crescimento económico, e que se o Exército não interviesse, "a China mergulharia no caos", como aconteceu em outros países socialistas.

"O que se passou em Tiananmen pertence à geração dos meus pais", afirma Chen Xi, 29 anos e gestor de compras num hospital de Pequim. "A política não me interessa muito".

Outros lamentam a atual apatia social.

"As pessoas daquela geração tinham espírito de união; os estudantes lutaram por um ideal comum", enaltece Cheng Yunhui, 35 anos.

"Se hoje apelares aos estudantes para se unirem em torno de uma causa, duvido que tenham o mesmo voluntarismo", acrescenta.

Desde 1989, a economia chinesa cresceu o triplo da média global. A China é hoje a segunda maior economia do mundo e principal potência comercial do planeta, tendo-se convertido num 'player' capaz de disputar a liderança global com os EUA.

A única recordação que Zhao'an guarda daquele período remete para, quando a caminho da escola primária, inquiriu o pai sobre pequenos buracos, visíveis no chão e nos muros.

"São furos deixados por balas", ouviu.

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