REPORTAGEM: Moradores do bairro da Jamaica anseiam pelo dia em que serão realojados

No bairro da Jamaica, no Seixal, as fachadas dos prédios são em tijolo, as paredes estão cheias de infiltrações e há o medo de que tudo possa desabar, por isso os moradores anseiam pelo dia em que receberão uma nova casa.

"Estou mesmo com esperança de que isso aconteça, para sair daqui. Estamos muito apertados, temos sempre muita água que escorre até ao chão. Se tiverem uma casa melhor que esta para mim, é bem-vinda. Nós temos medo sim, porque não temos um portão no prédio, não temos nada e sentimos medo, o prédio pode desabar porque não está seguro", contou uma das moradoras do edifício 13.

Pulquéria Neto vive em Vale de Chícharos, conhecido como bairro da Jamaica (Seixal, distrito de Setúbal), há cerca de 20 anos e, apesar de ainda não haver previsões de quando se inicia a segunda fase dos realojamentos, confessou que já vai "começar a encaixotar" os seus bens.

Em 20 de dezembro do ano passado, terminou a primeira fase de realojamento dos moradores do lote 10, em que 187 pessoas foram distribuídas por 64 habitações de várias zonas do concelho, segundo a Câmara Municipal do Seixal.

Em declarações à Lusa, nessa ocasião, a autarquia revelou que já estava a ser preparado o realojamento do lote 13, onde residem 38 famílias, no entanto, ainda não havia previsão de quando poderão ter uma nova habitação.

As condições habitacionais no bairro não são fáceis, o chão é em cimento e muito irregular, não existem corrimãos, alguns pisos não têm eletricidade, nem qualquer tipo de isolamento.

"O problema é visível, existe água em tudo quanto é sítio, há um cano rebentado há meses e já alertámos a Câmara Municipal. É perigoso, é água que fica aqui parada, atrai mosquitos, doenças e gastos com hospitais. Esperemos sinceramente que, segundo o acordo que foi assinado em dezembro de 2017, consigam efetuar o realojamento de todos os moradores", referiu Vanusa Coxi, membro da Associação de Desenvolvimento Social de Vale de Chícharos.

Já Vital Pedro, que vive no bairro há 20 anos, disse esta manhã à Lusa que tinha acabado de regressar da Câmara Municipal do Seixal, onde esteve a falar sobre os realojamentos.

"Neste momento acabo de sair da Câmara do Seixal, nós estamos num quadro de realojamento e explicaram-nos que não será assim tão rapidamente, que as pessoas podem ser realojadas daqui a seis meses ou um ano. Estamos numa situação muito crítica e estas condições em que vivemos não são o ideal", frisou.

Segundo o município, o realojamento do primeiro lote em Vale de Chícharos representa um investimento total de cerca de 3,6 milhões de euros, dos quais 1,9 são suportados pela câmara municipal e 1,6 milhões de euros pelo Governo.

O edifício número 10 começou a ser demolido, mas, devido a uma ação imposta em tribunal pela empresa detentora dos terrenos, a Urbangol, estes trabalhos encontram-se suspensos.

O acordo para resolução desta situação de carência habitacional foi assinado em 22 de dezembro de 2017, com uma parceria entre a Câmara do Seixal, o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana e a Santa Casa da Misericórdia do Seixal.

A parceria visa o realojamento de 234 famílias e tem um investimento total na ordem dos 15 milhões de euros, dos quais 8,3 são suportados pelo município.

O bairro começou a formar-se na década de 90, quando populações que vinham dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) começaram a fixar-se nas torres inacabadas, fazendo puxadas ilegais de luz, água e gás.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Assunto poucochinho ou talvez não

Nos rankings das escolas que publicamos hoje há um número que chama especialmente a atenção: as raparigas são melhores do que os rapazes em 13 das 16 disciplinas avaliadas. Ou seja, não há nenhum problema com as raparigas. O que é um alívio - porque a avaliar pelo percurso de vida das mulheres portuguesas, poder-se-ia pensar que sim, elas têm um problema. Apenas 7% atingem lugares de topo, executivos. Apenas 12% estão em conselhos de administração de empresas cotadas em bolsa - o número cresce para uns míseros 14% em empresas do PSI20. Apenas 7,5% das presidências de câmara são mulheres.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

Quando não podemos usar o argumento das trincheiras

A discussão pública das questões fraturantes (uso a expressão por comodidade; noutra oportunidade explicarei porque me parece equívoca) tende não só a ser apresentada como uma questão de progresso, como se de um lado estivesse o futuro e do outro o passado, mas também como uma questão de civilização, de ética, como se de um lado estivesse a razão e do outro a degenerescência, de tal forma que elas são analisadas quase em pacote, como se fosse inevitável ser a favor ou contra todas de uma vez. Nesse sentido, na discussão pública, elas aparecem como questões de fácil tomada de posição, por mais complexo que seja o assunto: em questões éticas, civilizacionais, quem pode ter dúvidas? Os termos dessa discussão vão ao ponto de se fazer juízos de valor sobre quem está do outro lado, ou sobre as pessoas com quem nos damos: como pode alguém dar-se com pessoas que não defendem aquilo, ou que estão contra isto? Isto vale para os dois lados e eu sou testemunha delas em várias ocasiões.