REPORTAGEM: Idai: As vacas de Rodrigo Sebastião, os comboios, a fome e o pai

As vacas de Rodrigo Sebastião coexistem com os comboios e o português, que na semana passada ameaçou cortar a linha, está mais tranquilo, porque as águas estão a descer em Moçambique.

O empresário português, numa reunião na semana passada no consulado de Portugal em Maputo, tinha exposto a situação: com a subida das águas dos rios na sequência do ciclone Idai, o único sítio seguro para a manada era a linha de comboio. E os comboios não podiam voltar a circular.

O ciclone Idai, que no dia 14 atingiu o centro de Moçambique provocando centenas de mortes e muitos milhares de desalojados, ficou para a história como aquele que provocou uma subida do leito dos rios nunca vista.

Mais de uma semana depois, com chuvas esporádicas desde terça-feira da semana passada e sem chuva nos últimos dois dias, as águas estão a descer, como a Lusa constatou numa viagem aos arredores da cidade da Beira.

Dentro da cidade e nos bairros periféricos é também já visível alguma normalidade, apesar da destruição, voltando o pequeno comércio a ter todo o tipo de produtos. Há sacos de feijão à venda à beira da estrada, há bolachas, há frutas variadas, há hortaliças frescas, reflexo da ligação da Beira ao resto do país, retomada no passado domingo com a abertura da estrada nacional 6.

Nalguns locais que há três dias estavam intransitáveis é hoje fácil circular, tendo o nível das águas descido mais de um metro, como também constatou a Lusa. As ligações ferroviárias também foram retomadas e nalguns locais as escolas já abriram.

É por isso que o empresário português, em declarações à Lusa, disse que "a situação está mais tranquila" que "as águas baixaram" e que "neste momento as vacas e o comboio podem coexistir na linha férrea, porque quando o comboio quer passar está a ter mais atenção à velocidade, reduzindo, e as vacas saem da linha férrea". E acrescentou: "neste momento está tudo mais normalizado".

Apesar da tendência de normalidade o empresário diz que as vacas têm de continuar junto da linha férrea, porque "não têm outro sítio onde ficar", embora seja uma questão de "mais três ou quatro dias".

A região de Tica, distrito de Nhamatanda, fica próximo do rio Pungue, que tem de reduzir o caudal para que o gado possa voltar à propriedade. Mas Rodrigo Sebastião diz que as suas terras serão das últimas a ficar secas. Só nessa altura pode voltar a meter as vacas no curral e contá-las. Antes do ciclone Idai eram cerca de mil, hoje não sabe quantas tem, embora elogie os responsáveis pela manada, que "foram exemplares a salvar os animais".

Além de máquinas agrícolas e de vacas em número que desconhece Rodrigo Sebastião não perdeu muito mais, porque nos terrenos não tinha ainda feito sementeiras. E diz que agora "é sarar as feridas e recomeçar".

Mas já não está tão otimista em relação às pessoas das pequenas comunidades, que perderam tudo com o Idai, incluindo as produções agrícolas.

"O verdadeiro problema não está só agora, vai começar dentro de cinco ou seis meses, quando for altura da seca e de falta de comida, porque agora ainda vão pescando e encontrando alternativas", contou.

Rodrigo Sebastião lembra a seca de 2016, que também destruiu as produções das famílias. "Foi um ano em que a farinha quadruplicou o preço e houve muita fome. Estou a antecipar um momento semelhante".

A alimentação base das comunidades é o milho e o "milho não aguenta o stress hídrico", pelo que a "grande preocupação é o que as pessoas vão comer". Certamente, disse, vai haver mais casos de roubos.

"Mas vai haver situação de miséria, que deve ser acautelada, principalmente pelas organizações que estão aqui hoje a prestar ajuda humanitária. Porque a ajuda humanitária não deve ficar só no curto prazo, deve ser a longo prazo, porque o maior desastre, a maior catástrofe ainda esta para vir, que é a fome", alertou.

Rodrigo Sebastião é filho do empresário português Américo Sebastião, que foi raptado numa estação de abastecimento de combustíveis e continua desaparecido desde a manhã de 29 de julho de 2016, em Nhamapadza, distrito de Maringué, na província de Sofala, no centro de Moçambique.

No início do ano, a Procuradoria-Geral da República de Moçambique mandou avocar o processo, que tinha sido encerrado, no início de 2018, pela Procuradoria Provincial de Sofala, centro de Moçambique, alegadamente por falta de elementos.

Questionado pela Lusa o jovem disse que continua a não ter "informação em concreto", mas que a mãe "está a trabalhar e não vai desistir".

"Já dissemos que só queremos o meu pai de volta, não queremos procurar culpados. Estamos à espera que quem é responsável por esta situação compreenda que está a criar uma grande dor a uma família, e que é desumano o que nos estão a fazer neste momento", afirmou.

Rodrigo Sebastião garantiu, no entanto, que sabe que o pai está vivo e afiançou que vai aparecer, faltando apenas a vontade de "as pessoas" tomarem uma decisão nesse sentido. A questão é de quem tem poder para o libertar tomar consciência de que já chega, disse.

No esforço para encontrar Américo Sebastião, a esposa do empresário, Salomé Sebastião, tem estado em contacto com as autoridades moçambicanas, incluindo a Procuradora-geral de Moçambique, Beatriz Buchili.

Nunca mais se soube do paradeiro do empresário desde o rapto, perpetrado por homens fardados, que algemaram o empresário e o colocaram dentro de uma das duas viaturas descaracterizadas com que deixaram o posto de abastecimento de combustíveis, segundo testemunhas.

Exclusivos

Premium

história

A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.