RCA: EUA querem que russos acusados de tortura sejam julgados

Os EUA exprimiram hoje a sua inquietação com a acusação "a militares centro-africanos e formadores russos" de violências em Bambari, na República Centro-Africana (RCA), reclamando o seu julgamento, durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU.

"Estamos muito inquietos", declarou o embaixador-adjunto norte-americano na Organização das Nações Unidas, Jonathan Cohen.

"Pedimos às autoridades centro-africanas que seja feito um inquérito e que os responsáveis sejam levados à justiça", acrescentou.

Segundo um documento da ONU, datado de 15 de janeiro, ao qual a AFP teve acesso, militares ou mercenários russos teriam torturado com facas, no início de janeiro, pelo menos um civil em Bambari, no centro da RCA.

Contactado pela AFP em 12 de fevereiro, este civil, que se disse chamar Mahamat Nour Mamadou, confirmou a violência, que atribuiu aos russos.

Perante o Conselho de Segurança, o embaixador-adjunto russo na ONU, Dimitri Polyanski, denunciou uma "interpretação deformada" e uma vontade de "prejudicar" a ação russa, "descrevendo-a de maneira negativa".

Este civil "reconheceu" ter perdido um dedo em combate e indicou que "um representante do Governo francês deu-lhe uma quantia elevada de dinheiro para ele dizer que os russos o tinham torturado", garantiu Polyanski.

"Também é preciso investigar o assassinato de três jornalistas" russos no verão passado, acrescentou o representante dos EUA.

O repórter de guerra Orkhan Djemal, o documentarista Alexandre Rastorgouiev e o operador de câmara Kirill Radtchenko foram mortos em julho por homens armados no norte da RCA.

Estes, financiados por um meio de comunicação pertencente ao opositor do Kremlin e oligarca no exílio Mikhail Khodorkovski, estavam a investigar as atividades dos mercenários russos na RCA, nomeadamente o grupo Wagner, que ganhou notoriedade na Síria.

As autoridades russas rejeitaram as conclusões de um inquérito que ligou este triplo assassinato ao grupo Wagner, garantindo que tinham sido vítimas de bandidos, que tinham ido para a RCA sem proteção, com muito dinheiro e sem avisar Moscovo.

"Todo o apoio ao governo da RCA deve ser transparente e bem coordenado, e conforme às normas mais elevadas de comportamento e conduta militar", exigiu Cohen.

A Federação Russa tem oficialmente instrutores civis na RCA, onde exerce desde há meses uma influência crescente. Segundo fontes ocidentais, estes instrutores seriam mercenários ligados a empresas extrativas russas.

A RCA caiu no caos e na violência em 2013, depois do derrube do ex-Presidente François Bozizé por grupos armados juntos na designada Séléka (coligação, na língua franca local), o que suscitou a oposição de outras milícias, agrupadas sob a designação anti-Balaka.

O conflito neste país, com o tamanho da França e uma população que é menos de metade da portuguesa (4,6 milhões), já provocou 700 mil deslocados e 570 mil refugiados e colocou 2,5 milhões de pessoas a necessitarem de ajuda humanitária.

O governo controla cerca de um quinto do território. O resto é dividido por mais de 15 milícias que procuram obter dinheiro através de raptos, extorsão, bloqueio de vias de comunicação, recursos minerais (diamantes e ouro, entre outros), roubo de gado e abate de elefantes para venda de marfim.

Em 06 de fevereiro foi assinado em Bangui, um acordo de paz entre o governo e 14 milícias.

Portugal está presente na RCA desde o início de 2017, no quadro da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana (MINUSCA).

Portugal também integra e lidera a Missão Europeia de Treino Militar-República Centro-Africana (EUMT-RCA), comandada pelo brigadeiro-general Hermínio Teodoro Maio.

Na EUTM-RCA, que está empenhada na reconstrução das forças armadas do país, Portugal participa com um total de 53 militares (36 do Exército, nove da Força Aérea, cinco da Marinha e três militares brasileiros).

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