Portugal/China: Europa do norte receia concorrência do sul no investimento chinês - Observatório

O presidente do Observatório da China em Portugal, o historiador Rui Lourido, considera que a preocupação europeia com os investimentos chineses nos países do sul da Europa assenta sobretudo no receio de concorrência dos Estados do Norte.

"É real o medo, é real a concorrência. Não é uma questão tanto de perigo para a economia portuguesa, mas de perigo para as outras economias europeias", defendeu Rui Lourido.

Em entrevista à agência Lusa a propósito da visita a Portugal, na próxima semana, do Presidente da China, Xi Jinping, Rui Lourido apontou que a chegada de qualquer comunidade culturalmente diferente e com grande poderio económico "gera sempre anticorpos".

Instituições europeias manifestaram recentemente preocupação com os investimentos chineses na União Europeia (UE), incluindo com a compra de infraestruturas e a oferta pública de aquisição da China Three Gorges sobre o capital da EDP [de que já detém 23,27%), que não avançou.

Recordando que Portugal é apenas o quinto recetor de investimento chinês na Europa, atrás de países como a Inglaterra (4.º) ou a Alemanha (1.º), Rui Lourido apontou que "o problema" parece estar na disponibilidade demonstrada por Portugal em relação à China.

"Portugal está a oferecer-se como uma plataforma de relacionamento com a Ásia e com a China para redistribuir o seu comércio para toda a Europa, África e, se necessário, para a América. Isto, que é visto com bons olhos pelos chineses, retira a prioridade dos portos do norte da Europa, que dominam as redes mercantis na Europa", disse.

Rui Lourido sustentou que "a descida" do investimento chinês para os portos do Sul, como o de Pireu, na Grécia, ou o de Sines, em Portugal, retira "poder económico" a países como a Alemanha, Inglaterra ou Holanda.

O historiador entende que Portugal "deve abrir portas a todas as alternativas que diversifiquem os investimentos e as alianças políticas", não descurando as relações com os parceiros tradicionais.

Por isso, considerou "fundamental" que o país integre a iniciativa chinesa "Uma faixa, uma rota", que visa ligar a China ao Ocidente por via terrestre, por um lado, e através da ligação de conjunto de portos na Ásia, África, América Latina e Europa, por outro.

"Sines é o principal porto em frente ao canal do Panamá por onde virão os grandes paquetes e cargueiros chineses de nova geração, que chegando a Sines podem rapidamente redistribuir pela Europa", disse.

O presidente do Observatório sustentou que "este projeto de globalização alternativo" da China retirará Portugal de um lugar "secundário de país periférico sem pretensões de maior papel internacional".

"Se esta proposta de aliança e entrada neste projeto internacional se concretizar, Portugal deixa de ter um papel periférico e passa a ser central, tornando-se um alto competidor dos portos do norte da Europa", disse Rui Lourido, assegurando que a integração neste projeto não implica qualquer cedência à China em matéria de posições internacionais.

"Portugal tem obrigação de se manter autónomo politicamente e como país, afirmando a sua identidade. Somos uma democracia, a defesa dos nossos princípios deve ser afirmada e não devemos prescindir da relação privilegiada com a Europa, mas também não devemos prescindir da porta aberta para o mundo" por via da China, acrescentou.

Rejeitando a classificação da China como uma ditadura, Rui Lourido, considera que o país tem uma democracia popular, com vários partidos representados na Assembleia.

"Não devemos prescindir das críticas àquilo que achamos que está mal na China [...] mas não devemos fazer-nos de moralmente superiores e estar a intervir em outros países", disse.

Sobre a visita de Xi Jinping, o historiador considerou que irá "elevar a parceria estratégica" que Portugal mantém com a China desde 2005.

"Vai dar visibilidade e centralidade a Portugal. Se Portugal entrar neste projeto, pequeno país que é, vai ter uma palavra a dizer. Vai ser ótimo para a economia portuguesa e para as condições de vida em Portugal", considerou.

O Observatório da China tem como missão contribuir para a divulgação e conhecimento da civilização chinesa. Com sede em Lisboa, tem um polo no Brasil (Salvador) e associados em Macau, Xangai e Pequim.

Entre os associados, contam-se investigadores, ex-embaixadores, representantes de universidades portuguesas, professores, historiadores, economistas, jornalistas ou empresários.

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