País mais populoso de África vota no sábado em eleições gerais

Os nigerianos escolhem no sábado o seu Presidente, os deputados à Assembleia Nacional e os senadores da câmara alta do Parlamento, num escrutínio que se apresenta como imprevisível no mais populoso país africano.

O país vai a votos depois de há uma semana as eleições terem sido adiadas pela Comissão Eleitoral Independente (INEC), sem grandes explicações, a poucas horas da abertura prevista das urnas.

A semana foi marcada pela escalada da tensão e a ameaça da eclosão de violência, com os dois principais candidatos e respetivos partidos a acusarem-se mutuamente de tentativas ou intenção de perpetração de atos de fraude eleitoral.

O vencedor das presidenciais irá governar nos próximos quatro anos um país com mais de 191 milhões de habitantes, registo que é apenas uma estimativa do instituto nigeriano de estatísticas, já que o último censo oficial é de 2006.

A Nigéria é o país mais populoso de África e o seu crescimento demográfico é um dos mais rápidos. De acordo com as previsões da ONU, a população nigeriana deverá alcançar os 410 milhões de habitantes até 2050, para se tornar no terceiro país mais populoso do mundo, atrás da China e da Índia.

O novo Presidente terá que enfrentar o desafio do emprego para os jovens, sabendo que 87 milhões de nigerianos vivem abaixo do nível de pobreza extrema, número apenas ultrapassado pela Índia, que, no entanto, tem 1,3 mil milhões de habitantes.

De acordo com a organização World Poverty Clock, a Nigéria afunda-se todos os dias cada vez mais na pobreza extrema, categoria que deverá representar 45,5% da população em 2030, contra 44,1% atualmente, ou seja, 120 milhões de pessoas.

Muhammadu Buhari, o Presidente cessante, tem 76 anos, e já governou o país em 1983, na sequência de um golpe de Estado e durante o período das ditaduras militares.

No mandato que agora chega ao fim, Buhari esteve ausente do país, em tratamentos de saúde em Londres, por quase seis meses, o que justificou repetidos pedidos de resignação por parte da oposição, que o acusou de não estar em condições físicas nem mentais para continuar à frente do Estado.

A oposição afirma mesmo que Buhari tem muito mais do que os 76 anos que ele afirma ter, e até o próprio não parece estar muito seguro da sua idade.

Em 2017, quando festejou o seu 75.º aniversário, disse que julgava ter 74 anos. "Disseram-me hoje que, afinal, tenho 75", afirmou na altura.

Pelo seu lado, com 72 anos, Atiku Abubakar quer conquistar os eleitores da faixa etária 18-30 anos, a mais representativa no país, com o argumento da sua juventude em relação a Buhari.

Para assinalar a sua 'juventude', a sua candidatura apresentou o "primeiro programa eleitoral totalmente escrito em emojis".

A oposição nigeriana apenas venceu uma vez um escrutínio, substituindo o partido no poder. O seu protagonista foi precisamente Muhammadu Buhari em 2015, que agora concorre à reeleição.

As eleições de 2015 desenrolaram-se quase sem violência, e foram as primeiras assinaladas como "livres e transparentes" desde o início do período democrático em 1999, após décadas de ditaduras militares e de golpes de Estado.

O vencedor das presidenciais terá que obter, além da maioria dos votos sufragados, pelo menos 25% dos votos em cada um dos 36 estados da federação e do território da capital federal, Abuja. Caso contrário, haverá uma segunda volta das eleições uma semana depois.

Este cálculo garante uma certa homogeneidade do apoio dos candidatos em cada região, num país dividido quase a meio entre cristãos e muçulmanos e entre centenas de grupos étnicos.

A campanha eleitoral foi dominada pelas discussões sobre economia. O produto interno bruto (PIB) nigeriano cresceu 1,9% em 2018, um dado divulgado pelo instituto de estatísticas do país esta semana, e deverá manter-se neste ritmo de crescimento em 2019, de acordo com as estimativas do Banco Mundial.

A Nigéria está muito longe do crescimento de dois dígitos registado no início da década de 2000, quando os preços do petróleo ultrapassaram os 100 dólares por barril, ainda que o país continue a ser a maior economia do continente, à frente da África do Sul, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

A Nigéria é também o país onde é mais rápido o crescimento do número de milionários em todo o mundo, de acordo com o instituto de investigação Wealth-X, que estima um avanço anual de 16,3% desde indicador até 2023.

Este indicador está diretamente relacionado com o número de barris de petróleo produzidos diariamente pelo país. Com uma produção de 1,8 milhões de barris/dia, a Nigéria é o principal produtor de crude do continente africano, à frente de Angola.

Esta é também a razão que leva alguns analistas a colocarem em causa as estimativas do Wealth-X, que podem pecar por defeito, atendendo aos barris de crude produzidos e exportados nos circuitos paralelos.

Exclusivos