Organizações da sociedade civil têm crescente influência no Magrebe - ativistas

Lisboa, 28 abr 2019 (Lusa) -- As organizações da sociedade civil estão a garantir uma crescente influência nos três países do Magrebe e afirmam-se um fator decisivo nos atuais processos de transformação social, foi hoje sublinhado numa conferência internacional em Lisboa.

"No início reuníamos para falar de igualdade, de amor, de justiça, de democracia, de cidadania, daí o nome da nossa associação, 'Banquete de Platão'", disse à Lusa o argelino Sadek Benjoudi, um dos ativistas deste movimento de "artistas que promovem a cidadania".

Sadek Benjoudi, foi um dos participantes, homens e mulheres marroquinos, argelinos e tunisinos, todos jovens, que hoje participaram numa conferência em Lisboa com o tema "Desenvolvimentos recentes na região do Magrebe - Argélia, Marrocos e Tunísia estão num caminho para a democracia?"

As respostas foram cautelosas, mas também se emitiram sinais de esperança, mesmo que os processos políticos nos três países vizinhos da Europa do sul sejam desiguais.

O artista argelino diz ter sido "o muro de gelo" com que se confrontaram de início que os impeliu a iniciar "um trabalho de fundo, na sociedade", e até que alguns anos depois em 22 de fevereiro passado, o país se revoltou e afastou o ex-Presidente Abdelaziz Bouteflika que pretendia concorrer a um quinto mandato presidencial.

A atitude do Governo francês do Presidente Emmanuel Macron, que insistiu no apoio o seu homólogo argelino e no prosseguimento dos negócios de gás ou de armas merece a sua crítica, e garante que a população do seu país apurou a sua "consciência".

"A juventude argelina via a Europa como uma esperança, mas após o 22 de fevereiro não houve uma única embarcação com jovens migrantes ilegais que deixou a Argélia. Agora, os argelinos veem a Argélia como uma esperança", enfatizou.

A importância das redes sociais como forma de mobilização e aproximação entre os jovens magrebinos, um dos temas que dominou as intervenções e o debate, foi confirmado pelo ativista do "Banquete de Platão", que afasta a perspetiva de um regresso do islamismo político radical ao seu país, como sucedeu no final da década de 1980.

"Na Argélia 65% da população tem menos de 25 anos que não conheceram nem a Frente Islâmica de Salvação [FIS], nem o terrorismo, nem o radicalismo. Conhecem o Facebook, Twitter, YouTube, veem o mundo como ele existe e também querem viver em liberdade a sua vida", acrescentou.

Fomentar o debate e constituir-se como movimento "intermediário" é, por sua vez, um objetivo central do Movimento "Clarté Ambition Courage" de Marrocos, como explicou a sua dirigente Safaa Issaad, natural da cidade de Agadir.

A ativista recorda as recentes condenações a pesadas penas de prisão dos "considerados dirigentes" do movimento social Hirak, que desde finais de 2016 agitou as regiões montanhosas do Rif.

Safaa Issaad acusa o Estado marroquino de ausência de "recetividade" face a reivindicações "que são geralmente sociais e culturais, e não políticas".

O regime marroquino tem geralmente respondido de forma dura e inflexível aos crescentes protestos sociais "que estão a nascer e a ganhar força em diversas regiões do país", como assinala, numa situação política definida como "muito complexa e difícil", que também atinge jornalistas de 'media' independentes, e com expressão nas redes sociais.

"É muito difícil perspetivar, de momento não vemos muitos sinais favoráveis a uma mudança democrática", admite Safaa Issaad.

Contudo, estão atentos às "alterações geopolíticas", ao "movimento social" na vizinha Argélia, sugere que Marrocos "pode não escapar a toda esta dinâmica".

E precisa: "O nosso Movimento pretende uma mudança democrática e trabalhamos nesse sentido, estimulando a participação cidadã, favorecendo a participação dos jovens e das mulheres na vida política em Marrocos".

A Tunísia, considerado o único "caso de sucesso" no desfecho da designada Primavera árabe de 2011, também permanece num período crucial na perspetiva de Zyna Mejri, dirigente do Movimento Youth Can, fundado em agosto de 2018.

"Não diria que a Tunísia é uma experiência bem-sucedida, ao contrário dos outros países. Diria que a Tunísia avançou mais no processo, ao contrário do que sucede na Líbia, Iémen ou Síria", referiu à Lusa a ativista, no final da sua intervenção, em que não poupou o regime da Arábia Saudita e elogiou a coragem da dissidência local.

"Mesmo na ditadura mais opressiva do mundo, a Arábia Saudita, as pessoas falam, os grupos feministas estão a crescer e falam de liberdade, de qualidade de vida, e isso é espantoso", frisou.

"Na Tunísia não existe esse género de opressão, e falamos. Na Arábia Saudita têm a coragem para também falar e criticar o regime. Diria que a experiência na Tunísia está talvez mais avançada, mas outros países vão seguir-se", adiantou.

A troca de experiências, o reforço dos contactos entre os jovens ativistas dos três países do Magrebe, a forma atenta como seguem a evolução da situação política dos seus vizinhos, constitui um aspeto crucial para Zyna Mejri.

"Tudo afeta tudo. O que se passa na Argélia pode influir na política tunisina... Apoiarmo-nos mutuamente, falar sobre o que se passa em Marrocos, na Argélia, não é marginal, não é um luxo, é uma necessidade que temos de fazer para manter ou garantir que vamos na direção correta no processo da democracia", defendeu.

A conferência foi organizada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Instituto Português de Relações Internacionais e European Endowment for Democracy.,

A iniciativa terminou com a intervenção de Michael Meyer-Resende, editor executivo da Democracy Reporting International e com experiência nas transições políticas e democratização.

"Trabalhamos nesta região desde 2006, e o nosso foco consiste no apoio às instituições democráticas, no reforço dos tribunais independentes, da sociedade civil, dos 'media', etc. E há alguns anos focamo-nos na questão dos media sociais, que implica muitos desafios. Mas constitui um meio muito importante para o debate público", sintetizou.

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