NOVAFRICA recebe 1ME para ajudar 8.000 jovens da Gâmbia a encontrar alternativas à migração

O NOVAFRICA recebeu uma bolsa de um milhão de euros para ajudar 8.000 jovens potenciais migrantes da Gâmbia a encontrar alternativas à migração e a melhorar as suas qualificações, disse à Lusa a diretora do centro.

A bolsa, atribuída pela Comissão Europeia, vai permitir "trabalhar com 8.000 jovens para lhes dar informação sobre alternativas à emigração ilegal para a Europa" e "formação profissional", disse a diretora científica do NOVAFRICA, Cátia Batista.

N entanto, as objetivos do projeto podem estar comprometidos, já que este financiamento corre o risco de ser cortado para metade, devido à fiscalidade, teme a investigadora deste centro da Nova School of Business and Economics (NovaSBE), a Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

"Uma das minhas preocupações em relação ao projeto é a gestão logística e burocrática do financiamento aqui em Portugal porque vamos ter de reter metade do financiamento em impostos", lamentou. Cerca de 25% ficarão retidos por inexistência de um acordo com a Gâmbia que evite a dupla tributação.

"É um grande desafio em termos de gestão de projeto", vincou.

Apesar das dificuldades burocráticas, tudo está a avançar para que o projeto, com a duração de 18 meses, arranque no terreno, em janeiro.

Os potenciais migrantes terão acesso a informação sobre migração legal (na própria região da África ocidental) e serão abrangidos por cursos de formação profissional, em áreas ligadas à construção civil, como canalizadores ou eletricistas, o que Cátia Batista resume como uma forma de "capacitação que torne estes jovens mais produtivos", caso decidam manter-se no seu país ou queiram vir para a Europa.

A Gâmbia foi o país escolhido, porque é aquele que apresenta maior taxa de emigração relativa, e o projeto destina-se a jovens do sexo masculino, entre os 18 e os 25 anos, os principais candidatos à migração neste país muçulmano "encaixado" no Senegal.

Cátia Batista salientou que embora as dificuldades da travessia do Mediterrâneo sejam mais mediatizadas, devido aos afogamentos, o drama dos migrantes começa muito antes de chagarem à Líbia onde normalmente são esperados por embarcações precárias para os levarem à tão desejada Europa.

"De acordo com os estudos que temos feito, os maiores riscos são mesmo antes", explicou, dizendo que há pessoas que morrem no deserto porque caem das carrinhas de caixa aberta onde são transportadas pelos traficantes e "ninguém para".

Em média, os migrantes pagam cerca de 3.000 dólares e 20% nem sequer conseguem chegar à Libia, onde enfrentam novos riscos ficando muitas vezes sujeitos a condições de trabalho que "são basicamente escravatura".

A responsável do NOVAFRICA e professora da NovaSBE salientou ainda que muitos dos migrantes desconhecem a realidade que vão encontrar na Europa e os obstáculos à legalização e, por isso, um dos objetivos do projeto é melhorar a informação dos potenciais candidatos.

Para Cátia Batista, o mais importante é que o projeto ajude "a melhorar as condições destas pessoas que, não sendo refugiados que estão a fugir de morte certa", vivem igualmente situações muito dramáticas nos seus países de origem.

"São situações tão difíceis que [os migrantes] acham que vale a pena correr este risco. Com o nosso trabalho preliminar, junto de 400 pessoas, percebemos que quando saem estão conscientes dos riscos e muitos até dizem que só têm cerca de 50% de possibilidade de sucesso", mas mesmo assim decidem tentar, comentou.

O NOVAFRICA foi criado em 2011 para estudar, avaliar e propor intervenções que pudessem ter um impacto positivo no desenvolvimento económico e social da África subsaariana, em especial nos países de língua portuguesa.

Tem desenvolvido projetos de campo em áreas como a saúde, educação ou inclusão financeira em vários países, incluindo Moçambique, Angola ou Guiné-Bissau.

O centro é financiado inteiramente com receitas próprias, através de doadores internacionais e bolsas para projetos de investigação.

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