Nações Unidas alertam para risco de fome na República Centro-Africana

A República Centro-Africana (RCA), país que enfrenta uma onda de violência, pode deparar-se com uma crise de fome, uma situação para que a coordenadora humanitária das Nações Unidas no país, Najat Rochdi, alertou hoje.

"Se a situação continuar assim, se as pessoas não regressarem aos seus campos e se não houver um ambiente propício para o retorno de deslocados para que possam (...) trabalhar novamente nos seus campos (...), em poucos anos teremos uma fome na República Centro-Africana que será um cenário catastrófico", disse Najat Rochdi em conferência de imprensa.

"O alerta está lá, e não falamos de dez pessoas, falamos de centenas de milhares de pessoas", assinalou Rochdi.

Num comunicado divulgado hoje, o Escritório das Nações Unidas para Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA) sublinhou que a "crise humanitária na RCA continua a deteriorar-se a um ritmo alarmante, marcado pelo aumento das deslocações forçadas, insegurança e dificuldades de acesso para civis e agentes humanitários".

Segundo a organização, nas últimas três semanas, mais de 50.000 pessoas foram afetadas pela violência nas cidades de Alindao (centro) e Batafango (norte), onde dois dos principais campos de deslocados nessas vilas foram incendiados.

"O mundo não pode fazer vista grossa perante o que está a acontecer na RCA. Estamos de volta à estaca zero", disse Rochdi.

"Estes ataques deploráveis estão a afetar as vidas de homens, mulheres, rapazes e raparigas inocentes", acrescentou a responsável.

A República Centro-Africana caiu no caos e na violência em 2013, depois do derrube do ex-Presidente François Bozizé por vários grupos juntos na designada séléka (que significa coligação na língua franca local), o que suscitou a oposição de outras milícias, agrupadas sob a designação anti-balaka.

O conflito neste país, com o tamanho da França e uma população que é menos de metade da portuguesa (4,6 milhões), já provocou 640 mil deslocados e mais de 570 mil refugiados, e colocou 2,5 milhões de pessoas a necessitarem de ajuda humanitária.

Em termos percentuais, a RCA enfrenta a terceira maior crise humanitária, com seis em cada dez civis a precisarem de ajuda humanitária, apenas atrás de Iémen e Síria.

O Governo do Presidente Faustin-Archange Touadéra, um antigo primeiro-ministro que venceu as presidenciais de 2016, controla cerca de um quinto do território.

O resto é dividido por mais de 15 milícias que, na sua maioria, procuram obter dinheiro através de raptos, extorsão, bloqueio de vias de comunicação, recursos minerais (diamantes e ouro, entre outros), roubo de gado e abate de elefantes para venda de marfim.

Portugal está presente na RCA desde o início de 2017, no quadro da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana (MINUSCA).

No início de setembro, o major-general do Exército Marco Serronha assumiu o cargo de 2.º comandante da MINUSCA, tendo já morrido 75 dos seus elementos desde que foi criada, em 2014.

Aquela que já é a 4.ª Força Nacional Destacada Conjunta no país é composta por cerca de 160 militares e iniciou a missão em 05 de setembro.

Portugal também integra e lidera a Missão Europeia de Treino Militar-República Centro-Africana (EUMT-RCA), comandada pelo brigadeiro-general Hermínio Teodoro Maio.

A EUTM-RCA, que está empenhada na reconstrução das forças armadas do país, tem 45 militares portugueses, entre os 170 de 11 nacionalidades que a compõem.

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