"Ministério da felicidade suprema" é um livro perigoso que insistiu em existir - autora

"O ministério da felicidade suprema", romance que a escritora indiana Arundhati Roy apresenta hoje em Cascais, é "um livro perigoso" sobre a Índia atual, que "insistiu em ser escrito" durante quase uma década.

Arundhati Roy, 55 anos, está em Portugal a convite do Festival Internacional de Cultura, em Cascais, onde falará sobre o recente romance e que a tem levado a vários países para encontros com leitores e jornalistas.

É quase no final da entrevista à agência Lusa que a escritora diz, discretamente, que este segundo romance de ficção é um livro perigoso, difícil de digerir e que, provavelmente lhe trará problemas com a justiça na Índia como aconteceu com o primeiro, "O deus das pequenas coisas" (1997) e com os ensaios que publicou nos últimos anos.

Depois de se ter tornado numa figura mediática com o sucesso de "O deus das pequenas coisas", que lhe valeu o prémio Booker e perto de oito milhões de livros vendidos, Arundhati Roy seguiu o caminho do ativismo político na Índia, em particular pela independência de Caxemira, território disputado entre Índia, Paquistão e China.

"Tenho tido problemas com os tribunais há anos. É uma das maneiras que a Índia tem de te punir, tendo um sistema judicial muito lento. Qualquer pessoa pode acusar-te de qualquer coisa e isso dura imenso tempo", lamentou.

Ainda assim, mantém-se na Índia, diz que escrever e viver lá é quase um ato de fé e que viajar pelo mundo, a contactar com leitores e jornalistas, funciona como uma espécie de proteção de segurança.

"O ministério da felicidade suprema" é, então, um livro que "insistiu em ser escrito", depois de a autora ter dedicado vários anos a escrever ensaios. Nele há personagens como Anjum, uma transexual que decide viver num cemitério, ou Tilo, mulher que luta pela independência de Caxemira.

"A ficção é a única maneira de contar uma história [como a do livro]. Não se pode escrever não-ficção sobre Caxemira. As notas de rodapé não te vão contar sobre o que se sente em viver sob ocupação militar", sobre repressão, explicou a autora.

Arundhati Roy está agora a deixar o livro assentar, mas diz que demorou dez anos a escrevê-lo, porque quis criar um universo particular, sobre "uma sociedade que é tão complexa, antiga, moderna, violenta, bonita". "É um convite para entrar num universo, numa forma de pensar e ver o mundo".

"Depois de ter escrito 'O deus das pequenas coisas', queria arriscar, queria ver o que um romance podia fazer com um tipo de modernidade que estamos a enfrentar, como é que se escreve uma narrativa que é quase como uma cidade", disse.

A demora deveu-se ainda a uma obsessão, explicou, em conviver com as personagens que lhe foram surgindo: "Quis viver com as personagens o tempo suficiente para saber que as quero ao pé de mim para sempre".

O Festival Internacional de Cultura (FIC) arrancou na sexta-feira com uma programação que inclui colóquios, debates, concertos, exposições, cinema e artes de rua.

Entre as mais de 70 personalidades que marcam presença no FIC, que decorre até 30 de setembro, estão os escritores Paul Auster, Lídia Jorge, António Lobo Antunes, Maylis de Keranga, Gonçalo M. Tavares e Hélia Correia, a atriz Vanessa Redgrave, o teólogo José Tolentino Mendonça e os economistas António Bagão Félix e Francisco Louçã.

Hoje, Arundhati Roy estará à conversa com a jornalista Ana Daniela Soares.

O FIC é promovido pela Câmara de Cascais e pelo grupo editorial LeYa, estando programação completa disponível em www.fic.leya.com.

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