Jovem empresário do Porto com paralisia cerebral cria videojogo para a PlayStation

Bruno Osório tem paralisia cerebral, desloca-se numa cadeira de rodas e, na adolescência, uma frase de José Mourinho mudou-lhe a vida, sendo hoje, com 30 anos, gestor de duas 'startup', numa das quais desenvolve um videojogo para a Playstation.

Aos 30 anos, o jovem empresário diz "não ter tempo" para lamentos e valoriza "cada segundo" da sua existência, materializando uma instrução paternal que lhe garantiu que "poderia ser aquilo que quisesse".

Em entrevista à agência Lusa, no Porto, falou de uma adolescência "com muitas incertezas" até que um dia, aos 14 anos, ouviu José Mourinho, na sua apresentação como treinador do FC Porto, a afirmar: "tenho a certeza que no próximo ano nós vamos ser campeões nacionais".

"Comecei então a pensar: se ele chega aqui e está a prometer com tanta certeza que vai conseguir uma coisa que ainda está para acontecer, então também consigo", descreveu, explicando depois que passou a "estruturar o pensamento" de "eu não consigo" para o "eu vou conseguir".

Mudado o "paradigma mental", Bruno Osório passou a ver o seu mundo com outros olhos, interpretando que a "cadeira de rodas não seria um facto que retirava coisas, mas que poderia acrescentar algo".

A questão era "perceber como o seria capaz de fazer", precisou.

Numa entrevista intervalada com muitos sorrisos, fruto de quem se sente muito bem com a vida, o jovem empresário avançou até à faculdade onde se formou em engenharia informática, cimentando um percurso onde se viu a criar as "próprias empresas".

Hoje detém duas 'startup', a Foxtech, criada em 2016, e "focada em tecnologia", e a Adamastor Studio, criada em 2018, de "produção de videojogos e conteúdos digitais", dando "emprego a 12 colaboradores".

O videojogo que está a desenvolver para a plataforma de jogos Playstation, o VRock, de "ritmos musicais", comprou-o a um amigo, após perceber que aquele entretenimento "tem muitas variantes" e também "muito público para explorar".

Seguiu-se o acordo com a PlayStation, que "fechou um negócio de exclusividade" com Bruno Osório "a troco de 100 mil euros em campanhas de publicidade", sendo que a consola da Sony vai ser a única a vender o videojogo.

"Está a ser feito praticamente de novo, quis dar-lhe o meu cunho pessoal", disse de um negócio que considera ter sido "um marco", porque o projetado "está a ser conseguido" e foi acrescido de "um contrato de investimento de um grupo de business angels (investidores)".

Projetando para o primeiro semestre de 2019 a conclusão do videojogo, são muito maiores os objetivos que tem por realizar, assumindo querer ser "um dos ícones do empreendedorismo português", ao mesmo tempo que garante que "vai ser a bandeira de que tudo é possível executar independentemente das limitações".

Também atleta de alto rendimento de boccia, Bruno Osório representa a Associação do Porto de Paralisia Cerebral (APPC), instituição com quem diz ter "uma relação umbilical" e aponta à participação nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, em 2020.

"Tudo o que projetei aos 14 anos ou está cumprido ou estou na carreira para o cumprir e a vertente empresarial é uma delas. Não tenho tempo nem paciência [para lamentar]. Não faz parte do meu ADN. Gosto de ser como sou e de ser quem sou", anotou.

Para Bruno Osório "é preciso que as pessoas com deficiência queiram assumir um percurso, uma maneira de estar na vida".

"Tudo aquilo que possamos fazer para melhorar a nossa condição deve ser feito, mas deve partir do nosso íntimo. Em Portugal as pessoas devem sair de casa, devem-se mostrar, não devem ter medo de mostrar quem são e pensar que a deficiência, em vez de fechar abre muitas portas", sustentou.

O empresário sonha no "prazo de três a cinco anos vender as duas empresas" que detém para tornar-se "investidor", "viver uma temporada nos Estados Unidos", e a nível pessoal "constituir família" a par da missão de "através da política dar mais voz ao cidadão com deficiência".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

Conhecem a última anedota do Brexit?

Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A escolha de uma liberdade

A projeção pública da nossa atividade, sobretudo quando, como é o caso da política profissional, essa atividade é, ela própria, pública e publicamente financiada, envolve uma certa perda de liberdade com que nunca me senti confortável. Não se trata apenas da exposição, que o tempo mediático, por ser mais veloz do que o tempo real das horas e dos dias, alargou para além da justíssima sindicância. E a velocidade desse tempo, que chega a substituir o tempo real porque respondemos e reagimos ao que se diz que é, e não ao que é, não vai abrandar, como também se não vai atenuar a inversão do ónus da prova em que a política vive.

Premium

Marisa Matias

Penalizações antecipadas

Um estudo da OCDE publicado nesta semana mostra que Portugal é dos países que mais penalizam quem se reforma antecipadamente e menos beneficia quem trabalha mais anos do que deve. A atual idade de reforma é de 66 anos e cinco meses. Se se sair do mercado de trabalho antes do previsto, o corte é de 36% se for um ano e de 45%, se forem três anos. Ou seja, em três anos é possível perder quase metade do rendimento para o qual se trabalhou uma vida. As penalizações são injustas para quem passou, literalmente, a vida toda a trabalhar e não tem como vislumbrar a possibilidade de deixar de fazê-lo.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

O planeta dos sustentáveis 

Ao ambiente e ao planeta já não basta a simples manifestação da amizade e da esperança. Devemos-lhes a prática do respeito. Esta é, basicamente, a mensagem da jovem e global ativista Greta Thunberg. É uma mensagem positiva e inesperada. Positiva, porque em matéria de respeito pelo ambiente, demonstra que já chegámos à consciencialização urgente de que a ação já está atrasada em relação à emergência de catástrofes como a de Moçambique. Inesperada (ao ponto do embaraço para todos), pela constatação de que foi a nossa juventude, de facto e pela onda da sua ação, a globalizar a oportunidade para operacionalizar a esperança.