Instituto Politécnico de Setúbal cria Roteiro para educação antirracista

Uma equipa de docentes da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal criou o Roteiro para uma Educação Antirracista para, através de vários seminários, desmistificar a "narrativa racial" ainda presente na sociedade portuguesa.

"Este roteiro é a possibilidade de, até junho, termos todos os meses um espaço de debate sobre como desconstruir o racismo dentro da educação em diferentes áreas", explicou hoje à Lusa uma docente e investigadora responsável por esta iniciativa, Cristina Roldão.

A propósito do tema, o auditório da Escola Superior de Educação de Setúbal debateu hoje "como descolonizar a narrativa nacional", onde Fernando Rosa, professor da Universidade Nova de Lisboa, mostrou que a "memória" da história portuguesa, sejam os descobrimentos, a colonização ou a guerra em África, persistem atualmente como uma "ideologia".

"Há uma narrativa que não é memória, é uma ideologia, é um discurso cultural sobre o passado enraizado na cultura portuguesa. Temos um passado glorioso, Portugal deu novos mundos ao mundo e tornou visível a existência de civilizações que, na realidade, eram muito mais antigas do que Portugal como nação. Há um discurso colonizador, de que as coisas existem porque o colonizador as encontrou, uma ideia de superioridade", explicou.

Um dos conceitos mais utilizados ao longo de todo o debate foi a "narrativa luso-tropicalista", referente à década de 50 e à justificação do racismo no brasil, dizendo que não existiu porque "Portugal tem capacidade para se misturar com os outros povos".

Para Fernando Rosas, estes discursos "penetraram profundamente na democracia portuguesa" e "não há ninguém que possa dizer" que não há racismo no acesso à habitação, ao emprego, na política, nas forças de segurança ou no ensino".

O assessor parlamentar do Bloco de Esquerda também esteve presente neste debate onde defendeu a necessidade de romper com o luso-tropicalismo em todas as áreas: "é preciso desconstruir, falar sobre a questão do privilégio branco e olhar para o processo histórico que resulta na descriminação de pessoas".

A mudança de perspetiva nos manuais escolares de história foi um dos contextos mais abordados, e Cristina Roldão, revelou que após uma análise, foi possível perceber vários "discursos racistas" nestes livros.

"Um deles é a ausência total de uma história sobre África, como tendo organizações políticas, culturais, económicas próprias e sofisticadas antes da presença dos portugueses. Falam sempre como o local onde os portugueses captaram recursos e população escravizada. E mesmo na atualidade é vista como um sítio de miséria, de crise humanitária e isso é o que vai ficando no imaginário dos manuais de história. Precisamos de transformar isto", sublinhou.

Um debate que ganhou atualidade tendo em conta os desenvolvimentos da última semana, após a intervenção da PSP no bairro da Jamaica, no Seixal.

"Não sonhamos que este momento ia acontecer numa altura tão polémica, mas ao mesmo tempo tão reveladora. É como se estivesse sempre escondido debaixo de terra e nestes dias ele rebentou, saiu cá para fora. É um momento muito oportuno e principalmente para a Margem Sul", frisou Cristina Roldão.

Até junho, realiza-se uma vez por mês uma conferência com esta temática, em vários espaços do concelho, como a biblioteca municipal, a Escola de Hotelaria e Turismo ou o cinema Charlot, e que apesar de ter como público-alvo os professores, educadores e alunos, está disponível para a comunidade em geral.

Neste âmbito, está ainda agendada uma visita para 28 de setembro à descoberta da "presença negra na região de Setúbal".

"É uma das partes mais interessantes. Sabemos da presença de população negra escravizada na região de Setúbal, em Alcácer do Sal, de confrarias antigas de homens negros na cidade de Setúbal, mas o mapeamento ainda está em construção e é surpresa. A ideia é que Setúbal não fique com uma história silenciada da presença negra na região", revelou Cristina Roldão.

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