Horta da Fonte marcou gerações e foi referência na vida noturna nacional

Abriu na passagem de ano de 1978 para 1979 e, durante 38 anos, a Horta da Fonte marcou gerações na diversão noturna, muito para além da provinciana cidade ribatejana do Cartaxo, chegando a abrir uma versão 2 no Algarve.

Instalada numa casa com jardim numa pequena rua do centro do Cartaxo, que hoje tem o seu nome, a Horta da Fonte foi um "fenómeno" que fez movimentar a vida noturna no Cartaxo -- depois dela surgiram mais três discotecas e 17 bares, a que se associaram vários restaurantes -, a ponto desta cidade do distrito de Santarém ser apelidada de "Las Vegas do Ribatejo" numa reportagem publicada na década de 1990.

"Inovámos, trouxemos o que faltava à região", recorda António Franco (Toni), fundador da Horta da Fonte (e do "também mítico" Coice da Mula) juntamente com o seu cunhado Luís Filipe, que mais tarde ficou a explorar a Horta 2, situada entre Lagos e Portimão, no Algarve.

Numa época em que os grandes êxitos internacionais "chegavam com atraso" de meses ao mercado nacional, na Horta eram dançados assim que "os contactos na TAP" chegavam com os discos ou as cassetes que estavam no "top" em países como os Estados Unidos, a Inglaterra ou França, disse à agência Lusa.

Depois, "tudo o que era êxito nas rádios" ia à Horta da Fonte, "custasse o que custasse, às vezes durante a semana", salientou, recordando a atuação de "todos os artistas nacionais" que na altura estavam em destaque, desde Herman José, às Doce, a Paulo Gonzo, a António Variações, ao frequentador assíduo Vítor Espadinha, mas também internacionais, como o vocalista do trio britânico Imagination, os também britânicos Samantha Fox e Gene Loves Jezebel, "entre muitos outros".

Recorrendo a uma empresa de Barcelona, a Horta da Fonte inaugurou a moda das "festas da espuma", teve a eleição da sua 'miss', promoveu passagens de modelos, exposições de pintura, passeios mistério, raides hípicos e eventos como a "festa louca", que motivou uma intervenção da polícia, porque a entrada se fazia por escada por uma janela e lá dentro "foi tudo posto ao contrário".

Mas, o "grande segredo" para a longevidade foi a "presença constante" e a dificuldade no acesso -- só entravam casais e as sapatilhas eram proibidas -, na procura de um "ambiente muito são, de não violência", sublinhou.

Na noite da passagem de ano de 1978, Fernando Henriques iniciou a sua carreira de 'disc jockey', com o nome de DJ Fernandinho, na Horta da Fonte, numa estreia que deu origem à primeira das muitas histórias que guarda de uma casa que "ajudou a construir" e o ajudou a "crescer, como pessoa e como DJ", e que recorda com emoção.

"Lembro-me perfeitamente que, meia hora antes da meia-noite, a aparelhagem deixou de tocar. Houve um problema enorme. Uma das pessoas que estava na discoteca foi a casa buscar uma aparelhagem caseira e acabámos por conseguir à meia-noite ter tudo a funcionar e a coisa correu normalmente. A partir daí, foi sempre, durante 38 anos...", disse à Lusa.

O "bom ambiente", decorrente da "seleção que se fazia à porta", e a antecipação dos êxitos musicais, fizeram com que a Horta da Fonte "fosse uma referência", salientou.

Com o resto da equipa, também ele rumava no verão para a Horta 2 no Algarve, onde as noites, "muito especiais", eram frequentadas pelas elites e celebridades da época, recordando António Franco as iniciativas de promoção, "muito à frente", feitas nas praias.

António Franco também atribui à Horta da Fonte a moda das festas revivalistas dos anos 80, que a discoteca começou a promover uma vez por mês na década de 2010, depois do evento que reuniu dez bandas portuguesas numa maratona de 16 horas.

As exigências legais a obrigarem a obras de vulto, a decisão da senhoria de aumentar a renda, as alterações sociais, nomeadamente com a vaga de festivais de música, a que se juntaram o que considera ter sido uma intervenção "desajustada" da polícia e a "falta de visão" da classe política local, ditaram o fim da Horta da Fonte na passagem de ano de 2016 para 2017, disse.

No primeiro piso do edifício está agora o nono espaço da Taberna do Quinzena, restaurante típico de Santarém com uma longa história de 149 anos, com Fernando Batista, bisneto do fundador, a assegurar que a discoteca vai reabrir.

"Se não for este ano, será no próximo", disse à Lusa.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

Premium

Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Premium

Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.