Grécia: A dívida, o desemprego e a austeridade que prevalecem entre o "combate ideológico"

A crise da dívida, o desemprego e a austeridade continuam a assolar a Grécia dois anos e meio após a tomada do poder pelo Syriza, e a desilusão perpassa pelas ruas da grande capital perante um impasse que parece não ter fim.

Em Atenas, esta grande metrópole onde se concentra quase metade dos 11 milhões de habitantes da Grécia, os sem-abrigo, os mendigos, os desempregados, os deserdados, continuam a povoar de dia as zonas mais movimentadas, em busca da esmola de um transeunte, de um turista, para depois se refugiarem no seu submundo, na sua solidão.

Os efeitos da profunda crise que assolou o país do sul dos Balcãs prevalecem, apesar as medidas sociais adotadas pelo Governo liderado pelo partido de esquerda Syriza, aliado a uma pequena formação de direita para garantir maioria parlamentar.

"De momento, apenas a população que estava na máxima pobreza, mais de dois milhões de pessoas, beneficiou com este governo. As restantes camadas não, sobretudo a classe média", indicou à Lusa um observador da política interna helénica.

"Nos jovens, há uma camada que desapareceu, que não está nas estatísticas, que teve de regressar a casa dos pais após o início da crise em 2009. Gente que se esforçou, estudou, gastou dinheiro na educação, mas as perspetivas são quase nulas. Não saem de casa, não têm possibilidade de partilhar um café, uma refeição. Não são sem-abrigo, não passam fome, mas em grande medida estão marginalizados, é um problema social muito grave", acrescentou.

O combate à extrema pobreza, uma herança dos anteriores governos, tem sido a prioridade dos governos liderados pelo Syriza, através de uma agenda política moderada, que tem promovido privatizações a "meio-gás" consideradas insuficientes pelos credores, tentando preservar alguns setores estratégicos, como a eletricidade.

"O Syriza nunca tentou aplicar um programa revolucionário, antes um programa onde não haverá corrupção, paternalismo, pelo reforço dos direitos dos trabalhadores, melhor política na saúde e educação, melhor Estado social. Uma agenda reformista social-democrata", entende Nicholas J. Theocarakis, presidente e diretor científico do Centro de Planeamento e Pesquisa Económica de Atenas.

"O atual governo não conseguiu inverter a situação, quem dirige a economia grega são as instituições internacionais. Mas houve muita resistência às mudanças que as instituições pretendem, em particular do FMI sobre o mercado laboral. No entanto, argumentam ser necessário legislar várias medidas...", prosseguiu o professor de Economia, que colaborou no primeiro governo do Syriza [janeiro-setembro de 2015] e liderou na qualidade de secretário-geral da política orçamental as negociações técnicas do ministério das Finanças grego com o Eurogrupo no primeiro semestre desse ano.

Nicholas Theocarakis garante que o 'Grexit', a saída do país da zona euro, nunca foi um objetivo do governo grego, mas refere que o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, defendia essa opção.

"Queiram impor à Grécia uma espécie de 'Grexit' suave, mesmo que não tivessem a aprovação de [chanceler Angela] Merkel, que percebeu as implicações políticas dessa decisão".

De seguida, veio o referendo de 05 de julho de 2015 no qual a população rejeitou o plano de austeridade proposto pelos credores, e uma semana depois a assinatura do terceiro plano de resgate.

"Mas o plano não está a resultar. Os credores não se interessam que a Grécia fique melhor ou pior. Querem demonstrar à população da Itália, França ou Espanha, três atores principais da UE, 'vejam o que sucedeu se tentarem isso'. Foi por isso que a Grécia foi extremamente punida, por vezes com sadismo. Julgo que existe um ódio não pela Grécia, mas pela classe trabalhadora em geral. E isso é para mim espantoso".

As medidas aplicadas pelo Governo de coligação, ainda muito dependente dos ditames internacionais para obter as parcelas do empréstimo concedido pelas instituições, têm continuado a penalizar a classe média, que registou um súbito e acentuado empobrecimento.

"Está tudo igual, pago 60% de impostos, restam-me 40% do que ganho. Todas as promessas deixam de ser cumpridas quando sobem ao poder", desabafa um jovem ao conduzir o seu táxi pelas ruas da cidade, sempre com intenso trânsito.

Diversos quadros políticos do Syriza têm-se retirado discretamente, sem críticas públicas mas desiludidos com o rumo dos últimos dois anos e meio.

Sia Anagnostopoulou, professora universitária de História contemporânea, foi ministra-adjunta no ministro dos Negócios Estrangeiros para os Assuntos Europeus e ministra-adjunta da Educação, mas decidiu regressar ao lugar de deputada pelo Syriza e integrar o grupo parlamentar grego no Conselho da Europa.

A deputada assinala o período "muito difícil" para os partidos no poder desde janeiro de 2015, com "ameaças externas e internas até ao ponto de o país entrar em total colapso", mas onde também foi encontrada "a força de permanecer de pé", sobretudo após o referendo de julho de 2015.

"É a primeira vez que os gregos começam a elaborar uma consciência de cidadania, que os cidadãos devem pagar impostos. Não podemos ter um Estado-providência se não pagarmos os nossos impostos. É essa uma grande diferença. Temos outra ideologia. Demonstramos que existem ideologias, que existe um confronto de ideologias, e isso é muito importante", regista.

O "combate ideológico" tem-se exprimido, segundo a deputada, no setor dos 'media', com a prevalência de uma "parceria" entre o poder político, a banca e os detentores dos 'media'.

"O Syriza tentou cortar as ligações entre estes três setores, e não é possível imaginar a reação que existiu", sublinha, numa referência a uma recente lei sobre a regulamentação deste setor.

"A oposição também deveria dizer que os 'media' privados devem pagar os seus impostos. A luta não terminou, há uma guerra extraordinária... Mas o sistema é muito forte. De início não entendemos como o sistema tem raízes tão fortes. Estão com eles a justiça, os bancos, os grandes interesses económicos, para nós foi muito difícil e ainda é muito difícil".

Esta lei, considerada um emblema pelo atual governo, ainda não foi aplicada por ter sido considerada inconstitucional pelas corporações mediáticas abrangidas, que acusam o Executivo de censura, mesmo de pretenderem tornar a Grécia "numa Venezuela".

A deputada assegura: "Tentaram travar estas medidas, mas iremos até ao fim. O sistema tem receio que, com o Syriza no poder, todas as suas raízes sejam cortadas. A reação é grande...".

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