ENTREVISTA: Europeias: PS tem que escolher que posição sobre Tratado Orçamental leva à campanha -- BE

A contradição do PS sobre o Tratado Orçamental é criticada pela cabeça de lista bloquista às europeias, Marisa Matias, considerando que os socialistas têm que escolher se levam à campanha o partido do Governo ou o do Parlamento Europeu.

Em entrevista à agência Lusa sobre as eleições europeias de 26 de maio, Marisa Matias insiste no tratado orçamental, uma das questões "mais importantes", lembrando que na campanha eleitoral de 2014 o então líder do PS António José Seguro "dizia que se o PS rejeitasse ou tivesse uma posição contrária ao Tratado Orçamental era a mesma coisa que pôr Portugal fora do euro".

"O PS, em relação ao Tratado Orçamental, vai ter que escolher qual é que vai trazer à campanha. Se traz o PS de Mário Centeno e do Governo ou se traz o do Parlamento Europeu que votou para a não integração do Tratado Orçamental no direito comunitário e bem, do meu ponto de vista", desafia.

Em novembro de 2018, foi chumbada no Parlamento Europeu a transposição para o direito comunitário do Tratado Orçamental, acordado entre os governos europeus e que fixa os limites do défice, da dívida e do esforço de consolidação, e as sanções por incumprimento dos mesmos, chumbo que, segundo a eurodeputada do BE, deixa "os países mais livres para se desvincularem unilateralmente".

Marisa Matias volta a ser a "número um" na lista do BE às eleições europeias, depois do mau resultado de 2014, quando o partido passou dos três eurodeputados que tinha elegido em 2009 para apenas um, tornando-se na quinta força política.

"Estamos a assistir em Portugal a uma recomposição do espaço político e do espaço político-partidário. Não ainda a níveis de recomposição que assistimos no quadro da União Europeia", lembra.

Essa recomposição em Bruxelas, acrescenta a dirigente bloquista, "é bastante mais acelerada e esmagadora naquilo que são consideradas as famílias fundadoras e as famílias mais tradicionais desta construção europeia".

"E nós estamos na iminência de assistir a um colapso da social-democracia à escala europeia e também a impactos muito significativos na chamada democracia-cristã, que é onde estão representadas as forças políticas de direita portuguesas", alerta.

Na visão da eurodeputada recandidata, para a direita, o tempo é de escolhas, uma vez que PSD ou CDS-PP "partilham o mesmo grupo parlamentar", o Partido Popular Europeu (PPE), com um partido de extrema-direita oriundo da Hungria.

"Ou de facto se separam da extrema-direita (...) e terão um custo eleitoral, mas não um custo do ponto de vista de credibilidade", ou "continuarão este caminho de abrir as portas à extrema direita no espaço europeu", aponta Marisa Matias.

Em Portugal, compara, "por via da solução governativa que se encontrou e do acordo parlamentar, a social-democracia não sofreu tanto".

"Terá provavelmente muito que agradecer à esquerda deste país", sugere.

Nas eleições europeias de 2014, uma das grandes surpresas foram os dois mandatos conseguidos então pelo MPT, na lista encabeçada pelo antigo bastonário da Ordem dos Advogados Marinho e Pinto.

Sobre a possibilidade do partido liderado pelo antigo primeiro-ministro Pedro Santana Lopes, Aliança, poder ter o mesmo efeito de Marinho e Pinto nas eleições de maio, a eurodeputada bloquista considera que "ainda está muita coisa em aberto até às europeias".

"Nós não sabemos exatamente quais são os novos partidos que vão concorrer e a introdução de novos partidos traz sempre alterações", alega.

Apesar da incógnita, Marisa Matias afasta a possibilidade que "o efeito seja o mesmo", considerando que o tipo de eleitorado que votou em Marinho e Pinto em 2014 pode não ser "exatamente o mesmo" da Aliança.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

Premium

Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Premium

Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.