ENTREVISTA: Cabo Verde destaca sucesso de reintrodução da espécie calhandra do raso em Santa Luzia

O nascimento de crias da calhandra do raso na ilha cabo-verdiana de Santa Luzia é sinal de sucesso da reintrodução desta ave na ilha, onde já viveu antes de ser extinta pelos predadores, disse o diretor nacional do Ambiente.

Em entrevista à agência Lusa, Alexandre Rodrigues referiu que o grande objetivo é diminuir a vulnerabilidade desta espécie, uma das aves mais raras do mundo e endémica de Cabo Verde.

A ave, com 13 centímetros, apenas se reproduzia no ilhéu a que deve o nome, alimentando-se das gramíneas locais. Inicialmente contavam-se elementos desta espécie em Santa Luzia, de onde desapareceu devido à presença de predadores, nomeadamente gatos.

Em abril do ano passado, numa parceria entre a Direção Nacional do Ambiente (DNA) de Cabo Verde, a associação ambientalista Biosfera e a Sociedade Portuguesa de Estudo das Aves (SPEA), foram transferidos 38 elementos para a ilha de Santa Luzia.

"Estamos agora a fazer a monitorização, a estudar e a ver como se vão comportando" e "já nasceram filhotes", disse.

A primeira calhandra-do-raso nascida na Reserva de Santa Luzia foi observada em agosto do ano passado, quatro meses depois da transferência e aparentando um ou dois meses de idade, segundo um comunicado da SPEA.

"Este é um claro sinal de sucesso da translocação e um importante marco na conservação desta espécie", disse Pedro Geraldes, técnico principal de conservação marinha da SPEA e um dos coordenadores do projeto "Desertas - Gestão Sustentável da Reserva Marinha de Santa Luzia".

Para o diretor nacional do Ambiente de Cabo Verde, "ao não limitar a presença desta espécie a apenas um local, ainda por cima um ilhéu muito pequeno, a sua vulnerabilidade diminui".

Alexandre Rodrigues sublinhou que o sucesso desta medida significa esperança, "não só para esta espécie, mas também para outras, com as quais possam ser utilizadas técnicas semelhantes".

De acordo com os critérios do Instituto de Conservação da Natureza, "esta espécie está em risco de extinção, porque está limitada a uma pequena área".

Questionado sobre as espécies que estão em risco severo de extinção em Cabo Verde, Alexandre Rodrigues referiu que a DNA está "a intensificar cada vez mais a investigação sobre estas espécies".

"Temos pouco conhecimento sobre as espécies, mas o status continua vulnerável. São espécies ainda em situação de vulnerabilidade: alguns répteis, algumas aves como a fragata, a garça, a calhandra do raso".

O especialista disse que a fragata e o abutre são as duas espécies mais ameaçadas em Cabo Verde. A primeira conta apenas com dois membros na ilha da Boavista.

O abutre, que é visível na ilha da Boavista e de Santo Antão, conta com poucos elementos, estando atualmente a ser objeto de uma campanha de recuperação e preservação que passa pela construção de ninhos artificiais.

As várias ameaças com que se deparam estas espécies vai ser, em breve, tema de um levantamento que a DNA vai promover, com a auscultação de vários peritos nacionais e internacionais.

Das ameaças conhecidas, conta-se o uso de pesticidas na agricultura, os cabos elétricos ou os corvos.

"São coisas que estamos a por na mesa e vamos discutir com os especialistas", disse.

Sobre o efeito da seca, Alexandre Rodrigues recordou que as espécies são endémicas em Cabo Verde "precisamente por causa disso: habituaram-se ao clima do país".

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Patrícia Viegas

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