Elsinore edita romance biográfico sobre últimos trágicos meses de Walter Benjamin

Lisboa, 25 mai 2019 (Lusa) -- O filósofo judeu-alemão Walter Benjamin suicidou-se após uma fuga desesperada dos nazis, em França, e esses terríveis últimos meses de vida foram narrados pelo escritor norte-americano Jay Parini, num romance biográfico que chega pela primeira vez a Portugal.

"A travessia de Benjamin" é um livro de 1996, em que o autor -- crítico, poeta, romancista e biógrafo Jay Parini -- narra com "perspicácia de biógrafo", mas conjugando registo ficcional com registo biográfico, "os últimos e trágicos meses de vida do escritor e filósofo judeu-alemão Walter Benjamin", relata a Elsinore, chancela que edita este livro, até agora inédito em Portugal.

Em 1940, passada uma década de trabalho sobre um texto que lhe traria finalmente o desejado reconhecimento como um do pensadores seminais do século XX, Walter Benjamin, alemão de origem judaica, encontra-se com a sua irmã numa Paris cercada pelos tanques nazis.

Sob a sombra da captura, guarda o manuscrito de cem páginas e outros textos inéditos na sua pasta de pele preta e abandona França, numa fuga atribulada em direção aos Pirinéus e à passagem rumo à liberdade, que nunca alcançaria, tendo-se suicidado junto à fronteira.

Este episódio, que ainda hoje está envolvido em mistério, é relatado também pelo ensaísta italiano Giorgio van Straten, em "Histórias de Livros Perdidos", editado igualmente pela Elsinore, no qual o escritor resgata a história de obras desaparecidas de autores consagrados, entre as quais o referido texto fruto de uma década de trabalho.

Nessa obra, Giorgio van Straten revela que Walter Benjamim tentou fugir de França para Espanha clandestinamente, acompanhado sempre de uma mala preta que nunca largava, com um manuscrito dentro que afirmava ser mais importante do que ele próprio.

Quando chegou a Espanha, tarde da noite, soube que no dia seguinte seria entregue aos alemães e suicidou-se, ingerindo uns comprimidos no quarto do hotel em que o grupo de judeus que acompanhava aguardava a deportação.

Os seus pertences foram registados numa lista, e incluíam "alguns papeis", dos quais nunca mais se soube, supondo-se que se trataria do manuscrito que o seu autor referira.

Este romance biográfico de Jay Parini vai mais fundo na vida de Walter Benjamin, resgatando-o da obscuridade, celebrando os seus feitos intelectuais, expondo as suas paixões e excentricidades e chorando a sua morte, como relata o autor logo no inicio da obra, referindo-se ao filósofo alemão como o seu "querido amigo perdido", que lhe mereceu as lágrimas que nem pela morte dos próprios pais verteu.

Ao debruçar-se sobre a vida de Walter Benjamin, o autor faz simultaneamente uma análise social, como relata o Los Angeles Times, que escreveu que, "recontada por Parini, a vida de Benjamin torna-se na expressiva metáfora do apocalipse que devastou o mundo civilizado em meados do século XX", ou o The New York Times Book Review, para quem a história de Parini -- "investigação minuciosa e dramatização poderosa" -- "tem algo importante a dizer-nos, não apenas sobre Benjamin, mas também sobre o papel do intelectual na sociedade ocidental moderna".

Jay Parini é autor de várias biografias de relevo, sobre autores como John Steinbeck, Robert Frost e William Faulkner, e de vários romances biográficos, alguns dos quais adaptados ao cinema, como é o caso de "A Última Estação" (Editorial Presença), baseado nos diários de Tolstoi, da biografia de Gore Vidal ("Empire of self: A life of Gore Vidal) e do presente "A Travessia de Benjamin", que se encontra em pré-produção.

Ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo, Walter Benjamin foi fortemente inspirado tanto por autores marxistas, como Bertolt Brecht, como pelo místico judaico de Gershom Scholem.

Conhecedor da língua e cultura francesas, traduziu para alemão obras como "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust, e textos de Charles Baudelaire.

Uma das suas obras emblemáticas, "As Passagens de Paris", reúne reflexões e materiais fragmentários escritos por Walter Benjamin, entre 1927 e 1940, que viriam a gerar alguns dos seus grandes ensaios sobre Baudelaire, arte e fotografia, e que a Assírio & Alvim publicou em abril.

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