Edição de 30 volumes reúne 80 obras pioneiras de humanidades e ciências em português

Os primeiros textos em português de diferentes áreas do conhecimento vão ser publicados em "Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa", edição de 80 livros que, em 30 volumes, reúne, pela primeira vez documentos de humanidades e ciências.

A edição, dirigida por Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco, cuja apresentação será feita em Lisboa, Porto e Coimbra, na terça-feira e dias 15 e 28 de setembro, respetivamente, é "um levantamento de textos fundamentais da língua e da cultura portuguesa, no sentido em que foram os primeiros escritos" sobre diversos ramos do conhecimento, ao longo de sete séculos, disse à agência Lusa o físico Carlos Fiolhais.

É uma coleção dos primeiros livros e textos publicados em português, entre os séculos XII e XVIII, sobre física, química, anatomia, farmácia ou engenheira, mas também teatro, retórica, história, gramática, filosofia, educação, viagens, cozinha ou guerra, exemplifica Carlos Fiolhais, sublinhando que "quase nenhum ramo [do conhecimento] fica de fora".

As três dezenas de volumes a publicar, durante três anos, constituem "uma biblioteca fundamental, que é como que o ADN da cultura portuguesa, que conta como tudo começou" em português, sintetiza o docente da Universidade de Coimbra.

"Nós temos uma história muito rica" e estes volumes -- que não entrarão no mercado livreiro, mas terão distribuição através do Círculo de Leitores -- permitirão aos portugueses acederem a obras pioneiras e "aperceberem-se do extraordinário brilho e antiguidade" da história do país.

"Não é necessário ler tudo", basta folhear, consultar, ir lendo, para se compreender o valor da língua e cultura (que "caminham uma a par da outra, são gémeas siamesas"), nos mais diversos domínios do conhecimento, ao longo dos séculos e, "para surpresa de muita gente, ver que [os portugueses foram] um povo pioneiro em muitas áreas", afirma Carlos Fiolhais.

Para Fiolhais, há uma necessidade de sentir orgulho "de uma cultura muito antiga, que conseguiu abranger praticamente todo o conhecimento humano", que "chegou ao mundo todo", contactou com as outras culturas e enriqueceu a cultura global, que, enfim, "como disse Padre António Vieira, nós [os portugueses] demos novos mundos ao Mundo".

"Por vezes pensamos que o outro, o estrangeiro, é que é bom", que os franceses ou os ingleses, por exemplo, "fizeram e nós copiámos ou fomos atrás deles" e que "a nossa língua só é conhecida por ser literária", mas ela é também "uma língua de ciência" e esta exprime-se "desde muito cedo" em português, como também demonstra esta obra.

Selecionados por serem "os primeiros [em português] sobre qualquer assunto", os livros e documentos que integram "Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa" não são, no entanto, fac-símiles dos originais ou simples traduções (do português arcaico para o moderno), mas de transcrições "o mais exatas possível", de acordo com "critérios linguísticos estabelecidos por especialistas", e adaptações que os tornam inteligíveis, refere Carlos Fiolhais.

As obras transcritas, fixadas e criteriosamente atualizadas mantêm, sempre que possível, arcaísmos e "o sabor arcaico da construção", revelando, deste modo, a língua portuguesa antiga, acrescenta Carlos Fiolhais, salientando que "quem sabe o português de hoje consegue, com esta ajuda dos especialistas", entender qualquer daqueles textos.

Também por isso (e para isso), o projeto envolve "recursos humanos extraordinários" e não apenas especialistas em linguística, mas também em cada área do saber, que produziram ainda notas explicativas e textos de apresentação/enquadramento, explica o catedrático de Coimbra, que dirige a coleção com José Eduardo Franco, da Universidade Aberta.

Publicada pelo Círculo de Leitores, sob a égide das universidades Aberta e de Coimbra (a mais recente universidade pública portuguesa e a mais antiga, nota Carlos Fiolhais), "Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa" mobiliza uma equipa multidisciplinar de mais de 170 investigadores, especialistas e consultores portugueses e estrangeiros, pessoas ligadas a cerca de meia centena de centros de investigação, academias, politécnicos e universidades nacionais e internacionais, entre outras entidades.

"Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa", que tem o alto patrocínio do Presidente da República, será apresentada em Lisboa, no Auditório 2 da Fundação Gulbenkian, terça-feira, às 18:30, por António Barreto, José Pacheco Pereira e Pedro Santos Guerreiro.

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