Deputado lança petição contra aquisição de viaturas de serviço topo de gama em Moçambique

Um deputado da oposição em Moçambique lançou uma petição nas redes sociais contra a aquisição de viaturas topo de gama para serviço dos 17 membros da comissão permanente do parlamento, disse hoje o próprio à Lusa.

"Quem faz trabalho público precisa de meios, mas penso que devia haver um pouco de moderação", disse hoje à Lusa o deputado Venâncio Mondelane, do MDM (oposição) autor da petição em que classifica os carros Mercedes como "um luxo insultuoso" face à crise que o país atravessa.

Mondelane diz já ter recebido telefonemas de apoio de outros deputados, mas desafia-os a "vir a público, assinar a petição" e redistribui-la, referiu.

A aquisição de viaturas no valor de 74.500 euros cada para os 17 deputados foi denunciada na última semana pelo semanário Canal de Moçambique, com a presidente da Assembleia, Verónica Macamo, a referir que o parlamento só fez a requisição e o secretário-geral, Armando Correia, a acrescentar que o assunto diz respeito ao Ministério das Finanças.

O porta-voz da Renamo (oposição), António Muchanga, atirou as culpas para o Governo da Frelimo e um dos beneficiários, Lutero Simango (MDM), disse à publicação Mediafax que "a preocupação do povo é legítima", reservando mais comentários para uma reunião da comissão permanente que venha a discutir o tema.

"Na última legislatura houve um episódio similar", mas em que "a comissão permanente escolheu viaturas de uma marca mais modesta. E na altura a situação do país era melhor que a atual", disse Venâncio Mondelane à Lusa.

O deputado defende que o órgão devia entregar os carros para o Estado tentar reaver o máximo possível da despesa e trocá-los por modelos mais adequados à realidade de Moçambique, onde a maioria da população viaja em furgões e em caixas de carga de carrinhas, sem condições de segurança.

Confrontado com o tema, Rogério Nkomo, Diretor Nacional do Orçamento, defendeu que os membros da comissão permanente têm direito a carros de protocolo do nível escolhido.

Em declarações à televisão independente STV, aquele responsável minimizou o valor da aquisição quando comparado com o total do Orçamento do Estado moçambicano.

Moçambique fechou 2016 com uma inflação de 25%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) moçambicano, obrigando a população a apertar ainda mais o cinto num país que já era classificado como um dos mais pobres do mundo.

A moeda nacional, o metical, terminou o ano entre as dez moedas do mundo que mais se desvalorizaram, ao perder cerca de um terço do seu valor - tendência entretanto invertida.

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