Começam na Gâmbia audiências sobre os abusos cometidos durante regime de Jammeh

A Comissão de Verdade, Reconciliação e Reparação da Gâmbia (TRRC) começou hoje a ouvir os primeiros testemunhos das vítimas e presumíveis autores das violações de direitos humanos cometidos durante o Governo do antigo Presidente Yahya Jammeh.

O Presidente gambiano, Adama Barrow, sublinhou hoje que "os gambianos sofreram demasiado tempo sob um regime repressivo, um regime que desrespeitou o seu contrato social com os cidadãos, e que, ao fazê-lo, oprimiu as mesmas pessoas que jurou servir e proteger", avançou a agência Efe.

Jammeh, que governou a pequena nação da África Ocidental entre 1994 e janeiro de 2017, é acusado de matar jornalistas, torturar e matar opositores políticos e promover a generalização dos abusos de direitos humanos no país durante mais de duas décadas.

"A TRRC nasceu das aspirações de um povo que decidiu que queria uma sociedade onde prevaleça a verdade e a justiça. Esta comissão é o resultado dos sonhos de um povo unido no seu desejo de um futuro melhor, um futuro livre de opressão, perseguição e tirania", continuou o chefe de Estado.

A comissão foi criada em outubro último com o objetivo de documentar a natureza, as causas e o alcance dos crimes e abusos, assim como de facilitar a concessão de reparações a um número elevado de vítimas do anterior regime gambiano.

A assessora principal da TRRC, Essa Faal, indicou que as audiências terão lugar por ordem cronológica e que há já testemunhas dispostas a falar das violações de direitos humanos cometidas em julho de 1994.

Jammeh, derrotado em eleições realizadas em dezembro de 2016, encontra-se exilado na Guiné Equatorial desde janeiro de 2017, depois de ceder às pressões diplomáticas internacionais para ceder o poder ao vencedor desse escrutínio e atual Presidente, Adama Barrow.

Em declarações à "Voice of Africa", a diretora da Amnistia Internacional (AI) para a África Ocidental, Marta Colomer, afirmou que estas audiências constituem passos importantes para a obtenção da justiça no país.

"Este é um sinal do forte empenho do atual Governo de cortar com a sistematização das violações dos direitos humanos que os gambianos sofreram durante 22 anos", afirmou a ativista.

Adama Barrow comprometeu-se a bater-se pela extradição de Yahya Jammeh para enfrentar a justiça do seu país, caso venha a ser esta a recomendação da TRRC.

Foi divulgado na semana passada um vídeo de Yahya Jammeh e do Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang, a dançarem juntos na noite de fim de ano, que deixa dúvidas sobre se Obiang virá algum dia vir a acordar a extradição de Jammeh, caso venha a ser esta a recomendação da TRRC.

Não obstante o vídeo, sublinhou hoje Marta Colomer, estas audiências assinalam os esforços de responsabilização judicial de Jammeh, seja na Gâmbia, na Guiné Equatorial ou em qualquer outro país.

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