Chevron desiste de comprar Anadarko e abre caminho à Total em Moçambique

San Ramon, Estados Unidos da América, 09 mai 2019 (Lusa) - A Chevron anunciou hoje que desistiu de comprar a Anadarko, o que abre caminho à Occidental para adquirir esta petrolífera e vender os ativos de África, que incluem a exploração de gás natural em Moçambique, à francesa Total.

"Ganhar em qualquer ambiente não significa ganhar a qualquer custo; o preço e a disciplina financeira importam sempre, e nós não vamos diluir os nossos lucros ou retirar valor aos nossos acionistas só para fazer um acordo", argumentou o presidente da Chevron, Michael Wirth, em comunicado.

"O nosso portefólio está a alimentar um crescimento robusto da produção e do fluxo de caixa, bem como maiores lucros sobre o investimento e menores riscos na execução dos projetos; estamos bem posicionados para criar e distribuir mais valor aos acionistas", acrescentou o gestor.

Com esta decisão, a Chevron anula o prazo de quatro dias, a terminar na sexta-feira, para melhorar a oferta de 33 mil milhões de dólares (29,3 mil milhões de euros) pela petrolífera Anadarko, que tinha a concorrência da Occidental, que numa segunda versão apresentou um preço superior e um aumento na remuneração dos acionistas.

"Não vamos fazer uma contraproposta e vamos depois o período de quatro dias expirar", lê-se no comunicado colocado no site da Chevron, no qual se acrescenta que "a Chevron antecipa que a Anadarko vá terminar o 'Acordo de Fusão'", ao abrigo do qual a Anadarko terá de pagar mil milhões de dólares à Chevron.

A saída da Chevron deixa o caminho aberto para a Occidental ver a sua proposta de 38 mil milhões de dólares (33,7 mil milhões de euros) ser aceite pelos acionistas da Anadarko, que verão a sua empresa duplicar a produção diária de barris, para 1,3 milhões, a par de países como Angola ou a Líbia.

As ações da Chevron subiram 3,2% para 121,26 dólares na abertura do mercado em Nova Iorque, ao passo que as da Occidental caíram 5,8% para 56,72 e as da Anadarko desvalorizaram-se 2,6%, para 73,90 dólares.

Desde o início do 'leilão' entre a Occidental e a Chevron pelo controlo da Anadarko que a Occidental, liderada por Vicky Hollub, era vista como a empresa mais frágil, nomeadamente em termos de robustez financeira.

A entrada de Warren Buffett em cena, aportando 10 mil milhões de dólares (8,8 mil milhões de euros) à petrolífera, e o anúncio do acordo com a Total para a venda de todos os ativos da Andarko em África, para além do aumento da remuneração dos acionistas, aumentando a entrega em dinheiro de 50% para 78% do total do acordo, terão sido decisivos para o recuo da Chevron, no seguimento das declarações da direção da Anadarko a favor da Occidental.

A notícia do recuo da Chevron surge no dia seguinte à divulgação da data para a Decisão Final de Investimento por parte da Anadarko relativamente à exploração de gás natural no norte de Moçambique.

"Com os compromissos para o financiamento assegurados, contratos garantidos e todas as outras questões em negociação resolvidas com sucesso, estamos entusiasmados em dar o próximo passo com o esperado anúncio da DFI para o Projecto Mozambique LNG no dia 18 de junho", afirmou o presidente e diretor executivo (CEO) da petrolífera, Al Walker, numa declaração feita no dia a seguir ao encontro com o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, na terça-feira, em Maputo.

"Esperamos que o dia 18 de junho seja um dia histórico em Moçambique, quando anunciarmos que um dos projetos mais importantes e transformadores na história do nosso país está pronto para avançar para a próxima etapa", afirmou o chefe de Estado, Filipe Nyusi, citado no mesmo comunicado de quinta-feira, da Anadarko.

Walker já tinha anunciado na terça-feira, aos jornalistas, na Presidência da República, em Maputo, após a reunião do Conselho de Ministros, que a construção da fábrica de produção de Gás Natural Liquefeito (GNL) no norte de Moçambique (a decorrer há ano e meio) seria retomada hoje, após a interrupção em fevereiro na sequência de um ataque armado a uma caravana da empresa.

Grupos armados têm protagonizado uma onda de violência na província de Cabo Delgado, desde outubro de 2017, mas tal não tem travado as obras.

O presidente executivo da Anadarko reiterou que o consórcio vai produzir GNL na Área 1 da Bacia do Rovuma dentro de cinco anos, naquele que será o primeiro projeto de GNL 'onshore' em Moçambique.

O grupo de empresas vai explorar o gás natural encontrado nas profundezas da crosta terrestre, sob o fundo do mar, a 16 quilómetros ao largo da província de Cabo Delgado.

Depois de extraído, através de furos, o gás será encaminhado por tubagens para a zona industrial a construir em terra, na península de Afungi, onde será transformado em líquido e conduzido para navios cargueiros com contentores especiais para exportação.

O plano prevê duas linhas de liquefação, instaladas em terra, e com capacidade anual de produção de 12 milhões de toneladas por ano de gás natural líquido.

Além da Anadarko, que lidera o consórcio com 26,5%, o grupo que explora a Área 1 é constituído pela japonesa Mitsui (20%), a indiana ONGC (16%), a petrolífera estatal moçambicana ENH (15%), cabendo participações menores a outras duas companhias indianas, Oil India Limited (4%) e Bharat Petro Resources (10%), e à tailandesa PTTEP (8,5%).

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