CGTP contra aumento salarial inferior a 50 cêntimos por dia no setor da cortiça

Santa Maria da Feira, Aveiro, 25 jun 2019 (Lusa) - O secretário-geral da CGTP juntou-se hoje ao protesto dos trabalhadores na Amorim Revestimentos, em Santa Maria da Feira, contra a proposta de um aumento salarial no setor "que não chega a 50 cêntimos por dia".

Para Arménio Carlos, que assim participava numa das diversas concentrações anunciadas até sexta-feira no âmbito da greve geral da indústria corticeira, "propor 14 euros de aumento mensal não é suficiente, sobretudo quando em causa estão empresas como esta" - que integra o Grupo Amorim, líder mundial do setor, e é uma das principais unidades de negócios da Corticeira Amorim.

Referindo-se a essa última, o líder da CGTP declara: "Esta empresa teve mais de 77 milhões de lucro em 2018, o que representa mais 6% do que no ano anterior, e apresentou agora uma proposta inaceitável de revisão salarial que não chega sequer a 50 cêntimos por dia, o que não dá sequer para um café".

Arménio Carlos quer ver refletido no novo contrato coletivo de trabalho um aumento de pelo menos 3% e 25 euros mensais, o que dará cerca de 80 cêntimos por dia, e deseja também ver corrigidas situações de "discriminação salarial" como as que resultam do pagamento de diuturnidades de "centenas de euros por mês" aos funcionários administrativos com mais de seis anos de casa, quando o mesmo não se aplica os operários da produção, qualquer que seja a sua antiguidade.

Manuel Silva, delegado do Sindicato dos Operários Corticeiros do Norte e porta-voz da comissão de trabalhadores da Amorim Revestimentos, diz que há outros problemas por resolver nessa unidade de negócios da Corticeira e realça que o mais evidente é a falta de pessoal.

"Linhas que tinham cinco ou seis pessoas agora estão só com duas ou três e não sofreram qualquer alteração em termos de automatismo, o que representa uma pressão atroz sobre os trabalhadores, porque a empresa quer que a produção seja a mesma de antigamente, todos os dias", explica.

Considerando que a Amorim Revestimentos é a única unidade de negócios da Corticeira Amorim que "tem tido prejuízos nos últimos anos" e que os respetivos clientes vêm devolvendo grande quantidade de "materiais que foram postos à venda sem ser devidamente testados", Manuel Silva garante: "É preciso meter mais pessoas na empresa, porque as que saíram nunca foram substituídas".

Na manifestação com cerca de 50 operários do turno das 05:00, Arménio Carlos abordou ainda outras reivindicações dos sindicatos à mesa das negociações para o novo contrato coletivo de trabalho, nomeadamente melhores subsídios para doenças profissionais e um aumento de 45 cêntimos no subsídio de refeição para que esse passe a ser de seis euros diários.

A Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR), que representa a estrutura patronal do setor, só tem proposto, contudo, cinco cêntimos de aumento, o que a CGTP e Comissão de Trabalhadores da Amorim Revestimentos dizem que "não paga sequer um pão".

"Não podemos aceitar que grupos desta dimensão continuem a fazer finca-pé nas negociações em relação às propostas que a estrutura sindical tem apresentado e isto tem que ser alterado, porque o país não se pode desenvolver com baixos salários nem com precaridade", insistiu Arménio Carlos.

Avisando que o próximo passo será a luta "a curto prazo pelos 850 euros de salário mínimo nacional", o secretário-geral da CGTP só vê vantagens na melhoria das remunerações laborais porque "trabalhadores com salários melhores vão consumir mais, fazem a economia crescer e a até a Segurança Social também vai beneficiar com isso".

Contactada pela Lusa, a administração da Amorim Revestimentos disse que não vê "nenhuma razão plausível para esta greve, à exceção do processo negocial entre os sindicatos e a APCOR. As próximas reuniões estão já agendadas e o processo, tal como em anos anteriores, continuará o seu percurso normal".

Até sexta-feira, a greve da cortiça prevê concentrações e desfiles em 16 unidades industriais do Norte e Centro do país, com especial incidência nas do Grupo Amorim.

Esta quarta-feira, a greve prossegue na Feira, na Amorim Revestimentos, e estende-se a Coruche e Vendas Novas, com concentrações anunciadas para a Amorim Florestal, a Equipar da Amorim & Irmãos e a Amorim Isolamentos .

Na quinta-feira os protestos continuam nas unidades da Amorim Florestal em Salteiros e Ponte de Sor, e na sexta na Amorim Cork Composites, em Mozelos, novamente na Feira.

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