'Brexit': UGT salienta importância de evitar uma "saída descontrolada"

A UGT, que hoje, juntamente com os restantes parceiros sociais, se reuniu com o negociador chefe para o 'Brexit', salientou a importância de se conseguir um acordo de saída do Reino Unido da União Europeia que evite "uma saída descontrolada".

Na reunião com Michel Barnier, em Lisboa, no âmbito da sua deslocação a Portugal, foi dado a conhecer aos parceiros sociais o andamento do processo.

Em declarações à agência Lusa no final da reunião, a secretária internacional da UGT, Catarina Tavares, destacou a iniciativa, no âmbito do diálogo social europeu, e salientou a mensagem que foi transmitida aos parceiros de que "neste momento há uma grande interrogação, está tudo a mexer, mas o jogo está do lado do Reino Unido".

"O ideal seria um acordo. Uma saída descontrolada não serve a ninguém", disse a responsável, explicando as preocupações da UGT relativamente a uma saída abrupta (sem acordo) do Reino Unido, com implicações em Portugal ao nível da economia (com uma previsível quebra de exportações) e das suas consequências ao nível do mercado de emprego, quer em Portugal quer nos portugueses que trabalham no Reino Unido.

Antes de se reunir com os parceiros, o negociador chefe da União Europeia para o 'Brexit', Michel Barnier, esteve na Assembleia da República, onde garantiu que, "se as linhas vermelhas do Reino Unido mudarem", a UE mudará imediatamente o acordo de saída.

"As linhas vermelhas são do Reino Unido, não são nossas, e fecharam portas" na negociação do acordo de saída, disse Barnier na Assembleia da República, para defender o acordo já negociado como "o melhor possível".

Hoje também, o primeiro-ministro anunciou o reforço do apoio consular aos portugueses no Reino Unido e a criação de uma linha de 50 milhões de euros para as empresas portuguesas, caso não haja acordo para o "Brexit".

Em conferência de imprensa no final da reunião do Conselho de Ministros, que aprovou hoje as medidas, António Costa disse esperar que não seja necessário acionar o "plano de contingência", explicando que o país tem de se preparar, contudo, para o "pior dos cenários".

"Este é um plano na previsão do pior cenário que é não haver acordo" até 29 de março, mas "obviamente há medidas preparatórias que têm de começar" a ser acionadas, justificou.

O primeiro-ministro destacou que já foi produzido um "folheto com informação" para os cidadãos britânicos a residir em Portugal e que está em preparação a linha de 50 milhões de euros destinada a "apoiar empresas portuguesas" que exportem predominantemente para o Reino Unido e que precisem de diversificar os canais de exportação.

Os parceiros estiveram presentes na quarta-feira numa reunião extraordinária da Concertação Social, que teve como ponto único de agenda as "Medidas de Preparação e Plano de Contingência para a saída do Reino da União Europeia ['Brexit'].

O presidente da CIP -- Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, congratulou-se com as medidas anunciadas pelo Governo e disse que as empresas têm de estar preparadas para os "perigos que podem vir a ocorrer" com a saída do Reino Unido da União Europeia.

António Saraiva sublinhou que é necessário reforçar os meios humanos nos portos aduaneiros, onde já existem "deficiências de capacidade de resposta", nomeadamente no Porto de Sines.

Já o presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Francisco Calheiros, disse estar "muito preocupado" com as consequências para o turismo, que já se estão a sentir em Portugal "de uma maneira bastante profunda".

Segundo adiantou Calheiros, as dormidas de turistas britânicos em 2016 cresceram cerca de 10% em Portugal, em 2017 não houve crescimento e os últimos dados disponíveis, de outubro, mostram um decréscimo de 9%.

Além disso, o responsável disse estar preocupado com as dificuldades nas entradas de turistas britânicos em Portugal. "Se o Reino Unido vier a ser considerado um país terceiro, é praticamente o apocalipse pensar que vamos ter mais de um milhão de britânicos a entrar no nosso país e a ter de passar pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras", afirmou o presidente da CTP.

Do lado das centrais sindicais, o líder da UGT, Carlos Silva, disse confiar no plano do Governo e voltou a apelar para que os empregadores não aproveitem a situação para despedirem trabalhadores.

"Esperemos que isso não sirva como janela de oportunidade para criar outra vez desemprego em Portugal porque quem sofre é sempre o trabalhador", disse Carlos Silva.

Já o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, frisou que há "mais de 400 mil" portugueses a trabalhar no Reino Unido, "que precisam de ver os seus direitos salvaguardados e de uma mensagem muito forte que assegure a sua estabilidade quer profissional quer emocional".

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