ONU faz balanço sombrio da realidade económica nos territórios palestinianos

A taxa de desemprego "mais alta do mundo" na Cisjordânia e a pobreza generalizada na Faixa de Gaza são traços do retrato sombrio da realidade económica nos territórios palestinianos feito por um relatório da ONU divulgado hoje.

Lusa

O relatório anual da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) acerca da assistência que presta aos palestinianos afirma que "para assegurar uma recuperação sustentável, é necessário o levantamento completo do bloqueio israelita (a Gaza)" e a "junção económica de Gaza e da Cisjordânia".

Ultrapassar a crise energética deve ser uma prioridade, recomenda ainda a agência da ONU, que sugere que seja permitido à Autoridade Nacional Palestiniana "desenvolver os campos de gás natural 'offshore', no Mediterrâneo, descobertos na década de 1990".

Em relação à Cisjordânia, a UNCTAD dá conta de um aumento do desemprego para mais de 27%, "a taxa mais alta do mundo", bem como da diminuição do rendimento por habitante, da baixa da produção agrícola (11%) e da deterioração das condições socioeconómicas.

Na Faixa de Gaza, "a capacidade de produção foi destruída por três grandes operações militares" e pelo bloqueio israelita com mais de 10 anos, indica.

Alerta igualmente que a diminuição da ajuda dos doadores, o congelamento da reconstrução em Gaza e um consumo público e privado apoiado no crédito fazem diminuir as perspetivas de crescimento, que parecem ainda mais complicadas face à continuação da "confiscação de terras e dos recursos naturais pela potência ocupante".

"De acordo com a lei internacional, Israel e a comunidade internacional têm responsabilidades, não apenas de evitar ações que impedem o desenvolvimento, mas de adotar medidas para promover o desenvolvimento no Território Palestiniano Ocupado", disse Mahmoud Elkhafif, coordenador da unidade de assistência ao povo palestiniano da UNCTAD, citado no comunicado de divulgação do relatório.

No entanto, indica a agência da ONU, Israel não tem aliviado as restrições e o apoio dos doadores caiu para um terço face ao nível de 2008.

O relatório mostra o desenvolvimento da anexação israelita na Cisjordânia, que inclui o aumento da população dos colonatos e a expulsão de palestinianos, o investimento na construção de colonatos e a multiplicação de medidas que "aprofundam a integração dos colonatos no sistema estatal israelita".

Segundo a UNCTAD, as guerras com Israel e o bloqueio reduziram a Faixa de Gaza "a um caso humanitário de profundo sofrimento e dependência".

A agência recorda que, em 2012, a ONU advertiu que se não fossem invertidas as tendências, o enclave palestiniano se tornaria inabitável até 2020, referindo o relatório que "todos os indicadores socioeconómicos pioraram e que a situação em Gaza se deteriorou".

"O rendimento atual em Gaza por habitante é 30% mais baixo do que na viragem do século. A pobreza e a insegurança alimentar são generalizadas, apesar de 80% das pessoas receberem ajuda", indica o comunicado.

Assinalado pela UNCTAD é também o aprofundamento da longa crise de eletricidade no território controlado pelo movimento radical palestiniano Hamas.

"No início de 2018, as famílias tiveram em média duas horas de eletricidade por dia", refere.

Como consequência das privações, a faixa de Gaza regista uma alargada incidência da perturbação de stress pós-traumático e altas taxas de suicídio.

"Em 2017, 225.000 crianças, mais de 10% da população total, precisaram de apoio psicossocial", segundo a agência da ONU.