Europeias: Bulgária inaugurou aliança entre conservadores e extrema-direita

Sófia, 16 mai 2019 (Lusa) -- Crise económica, recuo demográfico, migrações, corrupção, minorias étnicas, são os cinco temas centrais que vão determinar o sentido de voto dos eleitores da Bulgária nas eleições europeias de 26 de maio.

Na sequência da sua adesão à União Europeia (UE) em 2007, juntamente com a vizinha Roménia, a Bulgária foi também o primeiro país a erguer um muro de arame farpado com a Turquia e a formar um governo de coligação com um partido de extrema-direita de retórica racista.

Em 07 de outubro de 2018, o assassínio da jornalista Victoria Marinova, apesar de aparentemente esclarecido como crime comum, fez recordar as características autoritárias do regime do primeiro-ministro Boyko Borissov, também atingido por diversos escândalos de corrupção.

Líder do Cidadãos para o Desenvolvimento Europeu da Bulgária (GERB, conservador), Borissov define-se como europeísta e atlantista, tenta transmitir uma imagem de político "responsável", mas adotou uma política de extrema dureza face aos migrantes e refugiados que chegam ao país.

Eleito presidente da câmara de Sófia em 2005, este antigo treinador da equipa nacional de karaté, 59 anos, apresentou-se como um "homem novo" empenhado em restabelecer a segurança no país.

Primeiro-ministro entre 2009 e 2013, voltou a assumir a pasta em 2014 e foi reconduzido nas eleições de 2017. Desde então, dirige uma coligação com uma formação de extrema-direita xenófoba.

As tendências de direita mais radical estavam implantadas na Bulgária antes da adesão à UE em 2007. Considerado o país mais pobre da UE, o país regista um intenso e contínuo despovoamento (7,3 milhões de habitantes contra nove milhões no final da década de 1980, quando caiu o regime liderado pelo Partido comunista de Todor Jivkov).

A Bulgária tornou-se no país do mundo com maior redução populacional devido à emigração, fraca natalidade e mortalidade superior à média europeia. Uma preocupação manifestada pelo papa Francisco na sua recente visita a Sófia.

No entanto, não se prevê que os apelos do papa surtam efeitos imediatos. Desde 2005 que o ultrarradical União Nacional Ataka, que então obteve importantes resultados eleitorais, apontava as minorias do país (rom, a população cigana, pelo menos meio milhão) e muçulmanos (turcos e pomaks mais de 10% da população total), como alvos principais do seu discurso racista.

Uma abordagem que também tinha como objetivo identificar os rom como supostos eleitores do Partido Socialista Búlgaro (BSP), e denunciar as alianças entre esta formação e o Movimento dos Direitos e das Liberdades (DPS, dominante na comunidade turca), e que tornava este "partido-charneira" decisivo na formação de maiorias governamentais, em detrimento dos "verdadeiros búlgaros".

Em paralelo, neste país do sul dos Balcãs de maioria eslava e religião ortodoxa, a linha de fratura entre a "esquerda" (BSP) e a direita (em particular o GERB) assenta sobretudo em referências geopolíticas. Assim, indicam diversos analistas, a direita é definida como "atlantista e pró-americana", enquanto a esquerda é tradicionalmente "pró-russa".

Paradoxalmente, em 2013, o Ataka de Volen Siderov, com o seu discurso profundamente nacionalista, forneceu um apoio parlamentar a um governo dos socialistas.

Um ano mais tarde, outra coligação de duas formações de extrema-direita, a Frente Patriótica, também garante representação no hemiciclo e com mais deputados que o partido de Siderov.

Em 2017 estes três partidos apresentam-se em conjunto na aliança Patriotas Unidos (OB) e garantem a terceira posição nas legislativas (9,07%), elegendo 27 dos 240 deputados.

O debate político búlgaro radicalizou-se com o afluxo de refugiados provenientes da Turquia, sobretudo sírios, que aumentou a partir de 2011.

Todos os governos optaram por uma política repressiva e as iniciativas de solidariedade são raras.

Uma primeira barreira de 30 quilómetros de vedações e arame farpado foi prolongada por mais 100 quilómetros em 2015 pelo gabinete Borissov ao longo da fronteira com a Turquia.

E após os resultados eleitorais de 2017, o GERB optou por se aliar aos Patriotas Unidos.

Antes da Áustria, a Bulgária tornava-se no primeiro país onde uma formação do Partido Popular Europeu (PPE) se aliava à extrema-direita, que obtém dois vice-primeiros-ministros e as pastas da Economia, Defesa e Ambiente.

No entanto, e após prolongado conflito, a Bulgária obteve um sinal satisfatório de Bruxelas sobre a questão da corrupção. Ao saudar uma "tendência positiva", a Comissão Europeia sugeriu mesmo a hipótese de o país sair em 2019 do mecanismo de vigilância do seu sistema judicial, em vigor desde a sua adesão à UE.

A justiça búlgara promoveu diversos inquéritos que envolvem a cúpula no poder, designadamente sobre tráfico de passaportes organizados por altos funcionários, que comprometiam diversos ministros e originaram demissões. Um contraste com a impunidade com que atuavam os políticos corruptos.

Apesar da aproximação entre Sófia e Bruxelas, a extrema-direita búlgara no poder, não renunciou a um discurso e a práticas violentas, em particular dirigidas à oposição e minoria étnicas, e que acabaram por implicar a demissão do vice-primeiro-ministro Vladimir Simeonov em novembro de 2018.

Uma das mais importantes minorias ciganas da UE vive na Bulgária (5% da população segundo os números oficiais), decerto inferior à realidade. A maioria vive à margem da sociedade, com muitas dificuldades em encontrar habitação e trabalho.

Recentemente, o vice-primeiro-ministro Krasimir Karakachanov, líder do VMRO (Movimento Nacional Búlgaro), que integra a aliança de extrema-direita Patriotas Unidos, que diz pretender "tratar da questão cigana", propôs um plano para a "integração dos grupos ciganos não socializados" e onde sugere o aborto gratuito para as mulheres rom.

Uma estratégia que segundo ativistas dos direitos desta minoria se destina a desviar a atenção dos escândalos de corrupção, como o recente "ApartmentGate", que assolam o país.

As tensões nos Patriotas Unidos vão prevalecer após a decisão de Marine Le Pen, dirigente a União Nacional francesa (RS, extrema-direita, ex-FN) em apoiar nestas eleições europeias o pequeno partido Volya (4,5% e 17 deputados nas legislativas de 2017), e não a coligação OB.

Assim, foi este partido dirigido pelo empresário Veselin Mareshki que esteve representado no encontro das extremas-direitas europeias que decorreu em 16 de novembro na capital búlgara.

Borrissov também reforçou a aproximação com o seu homólogo israelita Benjamin Netanyahu, que em novembro de 2018 participou em Varna num encontro de dirigentes dos Balcãs destinado a "contrariar a abordagem hostil da União Europeia" face a Israel.

O GERB poderá ainda prosseguir a aproximação aos países do grupo de Visegrado [Polónia, Chéquia, Eslováquia, Hungria] devido à questão migratória e à sua defesa da "Europa cristã" e dos seus "valores".

A Bulgária, onde o voto é obrigatório por lei, elege 17 deputados para o Parlamento Europeu.

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