ENTREVISTA/Jorge Bleck: Advogado diz que já pouco importa quem é o dono da Cimpor

O advogado Jorge Bleck, que enfrentou com Pedro Queiróz Pereira uma 'batalha' da Semapa pela Cimpor, diz sentir tristeza por ver a cimenteira "assim", confirmando o que anteviam, mas considera que ser atualmente detida por investidores brasileiros ou passar para turcos é "igual".

Em entrevista à Agência Lusa, e a propósito de a Cimpor ter acordado com os turcos da OYAK a venda de todos os ativos que compõem a Unidade de Negócio de Portugal e Cabo Verde, Jorge Bleck recordou como "a política e o lóbi financeiro" derrotaram os intentos do amigo e empresário Pedro Queiróz Pereira, este ano falecido, de "salvaguardar" a cimenteira do que veio a acontecer.

Foi ainda nos anos de 1990 que Pedro Queiroz Pereira começou "a conversar" com vários governos para comprar os 10% do Estado na Cimpor, na qual já tinha outros 10%. A empresa tinha os estatutos bloqueados e era preciso autorização governamental para que acontecesse.

A perspetiva, segundo Jorge Bleck, era evitar que a Cimpor, que era "indiscutivelmente um caso de sucesso", visse isso virar-se contra si, por ter já uma dimensão relevante. "O mundo do cimento é um mundo fechado, há, basicamente, cinco 'players' que mandam nisto. Há um dia em que virão e farão uma OPA [Oferta Pública de Aquisição sobre a Cimpor]", recorda.

Assim, ou o Estado mantinha a 'golden-share' e talvez aí a Cimpor tivesse possibilidade de evitar uma OPA ou então o Estado teria de promover, de alguma forma, capital privado nacional que conseguisse entrar na empresa.

"Bom, o Estado não fez nada. Nesse sentido, o Pedro Queiróz Pereira, com a visão que lhe era típica, lá ia dizendo que 'assim ia acabar mal'. E o Estado sempre a encanar a perna à rã e nada e, portanto, inicia conversas com a Holderbank [Holcim, na altura], sempre na filosofia de 'um dos gigantes virá e vai querer meter a 'pata' nisto, o melhor é ser eu a chamá-lo e a entender-me com ele, sempre fico com aquilo que consigo ficar. Ele fica com uma parte, eu fico com outra. Porque se isto não é assim - e esta foi a razão que foi exposta ao Governo já em plena OPA [da Semapa] - isto vai tudo para eles um dia e nós [Portugal] ficamos com zero", relembra o advogado.

A OPA sobre a Cimpor foi lançada em 2000, numa operação avaliada em mais de 2.500 milhões de euros, a qual acabou por perder.

Jorge Bleck refere que tanto ele como o empresário "subavaliaram" os caminhos que tomavam, pois "ingenuamente, porventura", acharam que "o Governo defendia os interesses nacionais e os governos defendem os interesses eleitorais".

"Efetivamente, não era fácil eleitoralmente dar a bênção a uma divisão da Cimpor. Achámos - e digo que com alguma ingenuidade e eu tenho responsabilidade nisso -- que se explicássemos a verdade ao Governo, por ser a verdade, ia ganhar. De todo. Estávamos no tempo de Guterres, Pina Moura e companhia, e numa visão muito curta e muito influenciada pelo Jardim Gonçalves. Estamos a falar de um tempo em que o Jardim Gonçalves estava casado com o Governo. Assim, este monta uma estrangeirinha vergonhosa onde utiliza como testa de ferro o Manuel Fino e como outro testa de ferro a Teixeira Duarte. Ambos (...) na história de, efetivamente, defenderem os centros de decisão nacional vão vender isto ao Governo em plena oferta (da Semapa/Holcim)", conta.

O advogado recorda que tiveram uma conversa com o ministro das Finanças e da Economia da altura, Pina Moura, na qual lhes foi "absolutamente assegurado" que o Governo não iria intervir, que iria deixar o mercado funcionar livremente e que "foi nessa perspetiva, e mesmo sabendo que era uma batalha que não ia ser fácil, que se avançou".

Neste caminho, lembra também as quezílias entre o bloco de parceiros, seus opositores, que "estavam em conluio, Teixeira Duarte, Manuel Fino, BCP e Lafarge", e a "declaração de guerra de Ricardo Salgado ao Pedro Queiróz Pereira" por este não ter contratado o BES para o banco da operação.

O Governo "acaba por intervir administrativamente", dizendo que não autoriza a venda dos 10% do Estado e a OPA cai "e a empresa fica nas mãos daquele quadrunvirato", refere.

"Enfim, a política venceu. E venceu também o lóbi financeiro do BCP e tudo o que significava naquela altura - que, entretanto, também, já sabíamos que era um gigante com pés de barro porque conhecíamos a situação - foi o primeiro com que nos cruzámos na vida, o segundo foi o BES -, mas eram as ligações. O presidente do BCP Jardim Gonçalves era na altura o DDT ['Dono disto Tudo']. Aliás, era o grande rival do Ricardo Salgado e, por isso, é que este tenta mais tarde com o Sócrates destruir o BCP", refere.

Mais tarde, por acordos e "também zangas" dos acionistas portugueses, começa o início do que se considera o desmembramento da Cimpor. Em 2010, a Votorantim adquiriu 21,2% da empresa em troca de 17,3% que a Lafarge detinha, enquanto a Camargo ficou com 31,8% da cimenteira. Entretanto, e devido a questões de concorrência no Brasil, em 2012, a Camargo Corrêa lança uma OPA sobre a Cimpor e compra mais 41%, ao mesmo tempo que acorda com a Votorantim Cimentos dar-lhe os ativos da Cimpor em sete países na Europa, África e Ásia em troca de sua participação na Cimpor. Assim, a Camargo passa a deter quase 95% da Cimpor. Cinco anos depois, a Intercement da Camargo retira a empresa de bolsa e em outubro de 2018 a Cimpor anuncia ao mercado o acordo com a OAK para vender as três fábricas e as duas moagens de cimento, as 20 pedreiras e as 46 centrais de betão localizadas em Portugal e em Cabo Verde.

"E assim os factos confirmaram que aquilo que o Pedro Queiroz Pereira tinha dito era absoluta verdade. Foi uma asneira tremenda não se ter feito na altura certa a divisão da Cimpor. Neste momento podia-se ter uma Secil com uma presença forte no Brasil, no Egito e noutros mercados na Bacia Mediterrânica, a Holcim com uma presença em Portugal, nós com alguma coisa em Espanha e, neste momento, acabou-se. Tem-se uma Secil reduzida ao mercado português, cuja quebra foi na ordem dos 60% e com uma subsidiária na Tunísia e outra no Líbano. A Secil podia ser hoje um relevante cimenteiro nacional com sede em Portugal, com um empresário que tem uma tradição de ter as coisas em Portugal e de não as vender", reforça Jorge Bleck.

"É uma tristeza ver isto agora sim. Desmembrado já tinha sido. Os turcos, enfim, para mim turcos ou brasileiros é absolutamente igual. Se calhar até prefiro os turcos porque estão muito mais próximos da mentalidade europeia do que está o brasileiro (...). E pronto, a Cimpor é o que foi", conclui.

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