ENTREVISTA: Europeias/Polónia: Jaroslaw Walesa teme a chegada do discurso do ódio ao PE

Gdansk, Polónia, 16 mai 2019 (Lusa) -- O antecipado crescimento dos "nacionalistas, populistas e xenófobos" no Parlamento Europeu preocupa Jaroslaw Walesa que, em campanha para um terceiro mandato, identifica o discurso do ódio a que se acostumou desde sempre como um novo desafio à União Europeia.

Em entrevista à agência Lusa, numa breve pausa da preenchida campanha eleitoral que o vai levar a percorrer toda a Pomerânia para assegurar um dos dois assentos que a Coligação Europeia deve conquistar naquela região, o político de 42 anos revelou ter-se habituado a duas realidades: às questões sobre o peso do nome Walesa na sua carreira política, que ouve, pelo menos, uma vez por semana, e ao discurso de ódio instalado na sociedade polaca, que ameaça agora chegar em força à assembleia europeia.

"Para um jovem político, foi algo positivo ser filho de quem sou porque não tive de estabelecer-me. O nome, a marca, já eram conhecidos. Naturalmente, tive uma vantagem para conquistar votos, contudo, com isso também herdei opiniões negativas em relação ao meu pai. Independentemente do que faça ou que tenha feito nos últimos 15 anos, essas pessoas que odeiam o meu pai vão-me automaticamente odiar. Faça eu o que faça, vou herdar esses críticos", sustentou.

Embora reconheça que as opiniões positivas são maioritárias e que o apelido até o ajudou no 'network' do Parlamento Europeu (PE), o filho do histórico herói do Solidariedade e primeiro Presidente da Polónia após a queda do regime comunista, Lech Walesa, nem sempre 'escapa' imune ao discurso do ódio que experienciou desde criança.

"Hoje de manhã, estava a entregar panfletos da campanha e a maioria das pessoas foi bastante educada, aceitou-os, mas houve um par delas que me insultaram. Felizmente, estamos a falar de um pequeno número de pessoas, mas elas existem e sentem-se no direito de atacar verbalmente e até fisicamente e que as suas ações são justificáveis. Temos de lutar contra isso", defendeu.

O eurodeputado da Plataforma Cívica, que conseguiu o seu primeiro mandato europeu em 2009, após ter falhado a eleição cinco anos antes, faz mesmo um 'mea culpa', assumindo que, numa Polónia profundamente polarizada entre o seu partido e o Lei e Justiça (PiS), os políticos "em vez de debaterem e apresentarem argumentos, revelando ódio uns pelos outros".

"É triste de ver. Nós, políticos, temos de começar a reconhecer que a linguagem que usamos é inaceitável. Temos de encontrar uma nova forma de comunicarmos uns com os outros. Talvez devêssemos começar desde o início, desde os miúdos e a educação. Temos de comportar-nos como um exemplo para as novas gerações, porque aquilo que eles ouvem e veem na televisão não é muito educativo", completou.

Jaroslaw Walesa teme agora que aquilo que se vive na sociedade polaca se transfira para Estrasburgo: "A composição do próximo PE vai ser mais difícil, ou seja, os grupos pró-europeus, como o Partido Popular Europeu e os Socialistas e Democratas, vão perder votos. Vamos perder lugares, podemos perder inclusive até 100 mandatos. Estes mandatos irão para os liberais, mas também para eurocéticos: nacionalistas, populistas, xenófobos. Isso é uma grande preocupação".

Para o eurodeputado polaco, originário de Gdansk, a ascensão do populismo é "o resultado do discurso do ódio, das 'fake news', do facto que não podemos defender-nos destas ideias terríveis".

"A Comissão Europeia apresentou medidas para nos defendermos, mas, para já, é uma batalha perdida. Temos de fazer tudo o que pudermos para resolver esta situação. O resultado destas eleições está diretamente relacionado com a nossa incapacidade para monitorizar as partilhas no Twitter, no Facebook", avançou.

Assim, "nos próximos meses, nos próximos anos", Walesa prevê que aconteçam "mudanças institucionais na UE", fruto de um debate "difícil" e longo que vai começar "imediatamente após as eleições" europeias, que decorrem entre 23 e 26 de maio.

"É importante que dialoguemos, que analisemos o que temos de melhorar em relação ao passado. Vão ser debates fantásticos. Mas para que a voz da Polónia seja ouvida, temos de estar em Bruxelas, no PE, na Comissão e no Conselho. Devemos entender que os próximos anos serão extremamente interessante mas extremamente difíceis", resumiu, acrescentando que, pela sua parte, vai tentar encontrar "tanta gente quanto possível" para explicar que a UE não é "algo que esteja lá longe" e que "o PE tem um grande poder, que influencia o que acontece na Polónia, nas suas aldeias e cidades".

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