Direitos humanos: Ataques indiscriminados e uso de armas ilegais continuaram em 2018 na Síria - ONG

A Síria voltou no ano passado a ser palco de ataques indiscriminados dos vários intervenientes, que também utilizaram armas ilegais, incluindo químicas, denunciou a organização Human Rights Watch (HRW) no seu relatório anual divulgado hoje.

"Em 2018, o Governo sírio, apoiado pela Rússia e pelo Irão, recapturou áreas em Ghouta oriental, nos arredores de Damasco e na província de Daraa. As forças governamentais usaram uma combinação de táticas ilegais, incluindo armas proibidas, ataques indiscriminados e restrições de ajuda humanitária para forçar os grupos antigovernamentais a renderem-se, o que resultou em deslocações em massa", indica o relatório da organização de defesa dos direitos humanos.

Segundo a HRW, mais de 1.600 civis foram mortos em Ghouta oriental entre 18 de fevereiro e 21 de março do ano passado e as forças pró-regime atingiram pelo menos 25 instalações médicas, 11 escolas e incontáveis habitações de civis na ofensiva para recuperar a zona.

A Human Rights Watch assinala ainda que ataques indiscriminados que "mataram e feriram centenas de civis" foram também utilizados por grupos insurgentes sediados em Ghouta contra Damasco, entre fevereiro e abril.

O relatório refere também que os intervenientes na guerra desencadeada em 2011 continuaram no ano passado a utilizar armas ilegais.

"A aliança militar sírio-russa utilizou bombas de fragmentação proibidas internacionalmente e armas químicas na reocupação de zonas", indica.

A organização diz ter investigado 36 ataques com bombas de fragmentação e perto de 25 outros possíveis ataques com as mesmas armas entre julho de 2017 e junho de 2018, adiantando existirem indícios de que a referida aliança utilizou armas incendiárias em Ghouta e Daraa.

Em relação a ataques com armas químicas, "entre 2013 e 2018, a Human Rights Watch e outras sete organizações internacionais independentes investigaram e confirmaram pelo menos 85 ataques (...) -- a maioria realizada pelas forças governamentais sírias".

"O número real de ataques químicos é provavelmente maior", adianta o relatório.

A HRW assinala, no entanto, que desde junho a Organização para a Proibição de Armas Químicas tem "autorização permanente para investigar e atribuir responsabilidade por ataques com armas químicas".

Em relação aos abusos por parte dos grupos rebeldes e 'jihadistas', o relatório cita a Comissão de Inquérito da ONU, de acordo com a qual "os grupos armados regularmente detinham arbitrariamente e torturavam civis em Douma, incluindo membros de grupos religiosos minoritários".

A HRW refere ainda que o grupo Hayat Tahrir al-Sham, filiado na Al-Qaida e presente na província de Idlib, "realizou detenções arbitrárias e raptos que tiveram como alvo opositores políticos e jornalistas", tendo também interferido no acesso humanitário e na distribuição de ajuda nas áreas sob o seu controlo.

Ao grupo extremista Estado Islâmico são apontadas incursões na província de al-Suweida em julho que mataram pelo menos 200 pessoas, tendo 27 sido raptadas.

A propósito de raptos, a HRW assinala que continua a desconhecer-se o destino de milhares de pessoas que foram raptadas pelo Estado Islâmico no leste da Síria antes de os 'jihadistas' terem perdido grande parte do território na região.

Adianta que, apesar de o grupo radical ter sido expulso de Raqa em outubro de 2017 as minas e engenhos explosivos que deixou colocados continuaram a matar e a ferir civis.

As detenções arbitrárias e os desaparecimentos forçados são problemas que persistem, nota o relatório, que cita dados de duas organizações locais.

Segundo a Rede Síria pelos Direitos Humanos, desde o início da guerra e até 30 de agosto de 2018, mais de 90.000 pessoas foram alvo de desaparecimentos forçados, a maioria às mãos do governo de Bashar al-Assad.

O Centro de Documentação de Violações de direitos humanos, por seu turno, listou 60.000 nomes de detidos pelo Governo desde 2011 cujo destino se desconhece.

"Em julho, o Governo sírio atualizou os registos civis para incluir as certidões de óbito de centenas de pessoas anteriormente detidas ou que tinham desaparecido. As atualizações não davam pormenores além da data e, ocasionalmente, causa da morte e o governo não entregou os restos mortais às famílias", indica o relatório, adiantando que "o governo sírio continua a deter e a maltratar indivíduos em áreas sob o seu controlo".

A HRW refere que a guerra da Síria matou até março 511.000 pessoas, segundo estimativas do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, e causou 6,6 milhões de deslocados internos e 5,6 milhões de refugiados, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

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