Chinelos, garrafas e escovas no caminho da arte de Xico Gaivota em Cabo Verde

Praia, 03 mai 2019 (Lusa) -- Os chinelos, as garrafas de plástico e as escovas de dentes são a principal "matéria-prima" recolhida em Cabo Verde pelo artista Xico Gaivota, que faz arte com o plástico que o mar devolve às praias.

Ricardo Ramos, um português que enquanto artista assina como Xico Gaivota, já foi mariscador profissional e tem com o mar uma relação muito especial.

"Sempre tive este contacto com o mar. Sempre soube o que se passava. Era mais um. Muita tertúlia, mas fazer alguma coisa não fazia", contou à agência Lusa, enquanto percorria as areias da Prainha, na cidade da Praia.

Um percurso difícil para alguém que tem um compromisso com o lixo. É que o plástico onde toca fica na sua posse e por ele é responsável até o transformar numa obra de arte.

Em Cabo Verde, onde se encontra a convite de um hotel que está a dinamizar o combate ao plástico, e tem realizado demonstrações de como transformar o lixo em peças de arte, encontrou matéria-prima sem fim.

"O lixo de Cabo Verde situa-me em África. A qualidade do plástico é muito fraca. São países que, devido ao nível económico, precisam de produtos com muitas embalagens", disse.

Ao longo dos quilómetros que tem percorrido, Xico Gaivota encontrou grutas repletas de garrafas de plástico e avenidas de chinelos.

As garrafas de plástico e os chinelos são, aliás, os produtos que com mais frequência encontra no seu caminho por terras cabo-verdianas, assim "como escovas de dentes, pentes, pouco plástico colorido, pouco plástico de grandes dimensões".

"Há muito lixo, constantemente em movimentação, e que termina sempre no mar, mais cedo ou mais tarde", disse.

Xico Gaivota recolhe plástico nas praias, assim como outros materiais. "Dou-lhes uma nova vida, transformo-os sem partir e tentando manipular ao mínimo os materiais".

"Tenho a noção que, onde quer que eu esteja, posso agarrar o lixo de uma praia toda, pôr dentro de sacos, chegar cá acima e pôr nos contentores certos, no sítio certo, seja o país menos ou mais desenvolvido, a probabilidade desse lixo voltar ao mar é altíssima", acrescentou.

A solução que encontrou foi recolher esses materiais, "fazer uma assemblagem com eles, espetá-los na parede e retirá-los desse círculo vicioso em que estão".

Apesar dos muitos quilómetros percorridos a recolher lixo, Xico Gaivota ficou surpreendido com "um material muito interessante" pelo qual se apaixonou, proveniente de um navio naufragado.

"O interior do barco foi todo descascado, são lâminas plásticas, um material muito esquisito, com dois lados, um vermelho e outro branco, o que é contrastante", explicou.

Com esta atitude, o artista acredita que está a trabalhar para o seu legado, para os seus filhos, mas não descarta as responsabilidades.

"Não vamos poder safarmo-nos desta maneira e dizer que isto vai depender das crianças. Isto é um fardo que vamos ter de carregar e solucionar", disse.

Às crianças, pretende apenas alertar para a importância das escolhas: "Um chupa e um rebuçado são a mesma coisa, mas o chupa tem um pauzinho que dura mais de 400 anos. A consequência de comer um chupa é inacreditável, porque os nossos bisnetos vão levar com o nosso pauzinho".

As preocupações do artista viram-se mais para o lixo que existe no mar, já que é lá que se encontra 70% do que o homem tem descartado.

"Cerca de 70% está no fundo. Estamos a ver o que ele cospe. O que tem lá nem nos passa pela cabeça", referiu.

Desde que, há cerca de dois anos, abraçou este desafio, Xico Gaivota, 41 anos, já produziu mais de 50 obras de arte, muitas com a forma de peixes e aves.

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