BE propõe "intervenção pública direta" para evitar fecho de fábrica em Moura

A líder do BE, Catarina Martins, defendeu hoje uma "intervenção pública direta" na fábrica de painéis solares de Moura, no Alentejo, para evitar o seu encerramento e o despedimento de cerca de 100 trabalhadores.

"A solução pode passar pela intervenção pública direta para manter a produção de painéis solares em Moura, estes 100 empregos, a capacidade produtiva instalada e para não desperdiçarmos o conhecimento destes trabalhadores", afirmou.

A dirigente bloquista falava aos jornalistas no final de um encontro com um grupo de trabalhadores da MFS - Moura Fábrica Solar, do grupo espanhol ACCIONA, que decorreu numa sala do quartel dos bombeiros de Moura, no distrito de Beja, e antes de uma reunião com o presidente da câmara municipal.

O encerramento da fábrica foi justificado pela ACCIONA com o facto de a sua viabilidade económica ser "impossível, num ambiente de mercado competitivo dominado por fabricantes chineses".

Catarina Martins considerou que o encerramento da fábrica e consequente o despedimento coletivo é "um contrassenso", dado que o país tem vindo a anunciar "investimentos avultados na energia solar para corresponder as exigências da descarbonização da economia".

"Precisando nós de investir em energia renovável, de descarbonizar a economia, que é uma urgência, as alterações do clima estão aí e o país não pode esperar, estes investimentos têm de ser feitos, mas vamos fazê-los com emprego aqui ou comprando tudo à China", questionou, respondendo, logo a seguir, que "deve haver emprego em Portugal".

"Se o dinheiro é para ser investido em energia solar que seja investido aqui e não nos digam que pode ficar mais barato comprar os painéis solares lá fora, porque isso é de quem está a fazer a conta pela metade, porque onde houver desemprego há mais despesa social do Estado", acrescentou.

A MFS, que começou a funcionar em 2008 e chegou a paralisar durante vários períodos, parou de produzir definitivamente em setembro de 2018. A sua criação foi uma das contrapartidas do projeto de construção da Central Solar Fotovoltaica de Amareleja, no concelho de Moura.

Após ter comprado a empresa criada pela câmara para construir e gerir a central, a ACCIONA construiu a MFS e, no âmbito de um acordo com o município, comprometeu-se a mantê-la a funcionar durante dez anos, ou seja, até 2018, e com mais de 100 trabalhadores.

Um porta-voz da ACCIONA disse à Lusa que a empresa "cumpriu todos os seus compromissos" com as autoridades portuguesas, mantendo a atividade da fábrica durante dez anos, "com uma média de mais de 100 empregados" e através de dois parceiros tecnológicos, um primeiro espanhol e um segundo chinês, que a geriram.

No entanto, o segundo parceiro, que geria a fábrica, "anunciou em 10 de setembro de 2018 - sete dias depois de a União Europeia ter decidido eliminar as tarifas sobre a importação de painéis da China - que iria concluir definitivamente a sua atividade em Moura e transferir a sua produção para fábricas na Ásia", explicou o porta-voz.

"Ao longo de 2018", a ACCIONA tentou negociar a entrada de um terceiro parceiro na gestão da MFS, mas "sem qualquer resultado, dada a evolução do setor à escala global", e, por isso, "não houve outra opção senão fechar a fábrica", frisou.

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