Autarca de Alfândega da Fé quer melhor política de coesão e inclusão para o interior

A presidente da Câmara de Alfândega da Fé disse hoje que os fundos que chegam ao interior do país "não têm sido suficientes", defendendo "uma melhor política de coesão e de inclusão" no âmbito da União Europeia (UE).

"A visão que tem havido é que vamos desenvolver as cidades e depois vamos redistribuir. Mas nós não queremos ser os pobrezinhos a viver do dinheiro da redistribuição. Queremos ter atividade económica que fixe população", disse a autarca de Alfândega da Fé, distrito de Bragança.

Berta Nunes, que falava aos jornalistas em Bucareste, na Roménia, onde decorre hoje e sexta-feira a 8.ª Cimeira Europeia das Regiões e dos Municípios, foi questionada se o poder local de Portugal precisa de uma maior representação na UE, nomeadamente em matéria de fundos comunitários.

Na resposta, defendeu que o mais importante é que ninguém fique para trás, apontando mesmo o exemplo de Inglaterra e do Brexit como risco.

"O nosso território não está a acompanhar o desenvolvimento da Europa. São necessárias políticas de coesão mais fortes. Se deixarmos alguém para trás pode acontecer-nos, por exemplo, o que aconteceu na Inglaterra, em que as pessoas de zonas rurais sentem que não estão a participar nesta riqueza que está a ser gerada. Têm um sentimento de frustração em relação a esta Europa e querem outra Europa", referiu Berta Nunes (PS).

A presidente da Câmara de Alfândega da Fé, um concelho com 5.000 habitantes e 320 quilómetros quadrados, frisou que "os fundos de coesão ajudam a melhorar o território, mas não evitam que alguns territórios percam população".

"Podemos construir equipamentos, mas não temos conseguido fixar as pessoas. Temos boas estradas e boas casas da cultura, mas temos de ter também pessoas", disse.

Segundo Berta Nunes, o Governo de António Costa "tem feito um esforço para conhecer melhor os problemas do interior e tratá-los de forma séria" e exemplo disso, disse a autarca, foi a nomeação de um secretário de Estado da Valorização do Interior, mas, do seu ponto de vista, "falta mais".

"Precisamos de uma política de renovação da atividade económica. Precisamos de uma política de industrialização para o interior. Temos o complexo do Cachão [entre Mirandela e Vila Flor, Terra Quente] que está praticamente ao abandono. É preciso ser aproveitado e dinamizado", exemplificou.

Questionada sobre se instrumentos como a regionalização e a descentralização podem interferir nessa política de coesão, Berta Nunes considerou-os, sobretudo, "muito importantes para que as regiões que têm dificuldade em ouvir-se em Lisboa possam ser ouvidas".

Sobre o Brexit, e no dia em que se decide um possível adiamento da saída do Reino Unido da UE, a autarca transmontana contou que, no seu concelho, esta incerteza já teve repercussões.

"Temos algumas famílias a regressar por sensação de incerteza. Se voltassem e tivessem alternativas, não era mau. O problema são as dificuldades cá também", descreveu.

A Cimeira Europeia das Regiões e dos Municípios, que acontece de dois em dois anos, foi criada com o objetivo de garantir que os órgãos de poder local e regional contribuem plenamente para os debates mais relevantes na UE.

O Comité das Regiões Europeu, criado em 1994 na sequência da assinatura do Tratado de Maastricht, é a assembleia da UE dos representantes regionais e locais dos 28 Estados-membros, sendo atualmente composto por 350 membros efetivos, 12 deles portugueses.

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