Único afinador de pianos dos Açores deixa região perante "desinvestimento na cultura"

Mário Vargas explicou que a atividade se tornou "inviável", devido à diminuição, em "cerca de 80%", do número de concertos de piano nos últimos quatro anos no arquipélago.

Os Açores vão deixar de ter um afinador de pianos, porque Márcio Vargas anunciou esta quarta-feira que vai deixar a região para rumar a Viseu, devido à diminuição de concertos e ao "desinvestimento" na cultura.

Em declarações à agência Lusa, Márcio Vargas, até agora o único afinador de pianos dos Açores e um dos oito afinadores credenciados a nível nacional, explicou que a atividade se tornou "inviável", devido à diminuição, em "cerca de 80%", do número de concertos de piano nos últimos quatro anos no arquipélago.

"Tem existido um desinvestimento de uma forma geral na área da cultura no que diz respeito ao piano. Tem sido uma coisa que tem acontecido nos últimos quatro anos, mesmo antes da pandemia, e houve um decréscimo muito grande nos últimos dois anos", assinalou.

Em setembro de 2019, Márcio Vargas explicou à Lusa que o seu trabalho era "minucioso", "altamente especializado" e exigia "muita paciência".

Na altura, apesar de vários convites para trabalhar no continente e no estrangeiro, explicou que decidiu ficar sempre no Faial devido a "entraves pessoais" e à "qualidade de vida", percorrendo as várias ilhas no exercício da profissão.

Menos de três anos depois, o afinador de pianos revela que a situação "mudou" e que vai rumar ao continente, porque, da parte do Governo dos Açores, "não há interesse" e não existiu "sequer abertura para discutir o assunto".

"Durante vários anos enviei propostas e alertei para unirmos esforços para prestar um serviço à mesma secretaria regional [da Educação e Assuntos Culturais] e fazer as afinações dos concertos e das escolas. Não houve qualquer abertura. Até disseram que não me podia considerar um privilegiado", revelou.

Para o afinador, a postura do executivo açoriano é "incompreensível", até porque beneficiou de uma bolsa de estudo atribuída pela direção regional da Cultura em 2006 para iniciar a sua formação.

"Não há vontade. Não há interesse. Os Açores vão perder o seu afinador. Eu vou continuar a vir à região, porque há entidades que querem continuar a trabalhar comigo. Obviamente que todo esse processo vai ser mais oneroso para a região", declarou.

Márcio Vargas disse ainda que as escolas "não têm capacidade para investir na manutenção dos pianos e as que têm, como o conservatório de Ponta Delgada e a Escola Tomás Borba" em Angra do Heroísmo "optaram por trabalhar com afinadores de fora" do arquipélago.

Os serviços também passaram a ser menos requisitados porque as "escolas preferem comprar pianos fora" em vez de adquirirem nas lojas dos Açores.

"É lamentável. Quinze anos de trabalho, nos quais tive a oportunidade de colocar a região na rota e nos roteiros dos pianos. Os pianos estavam sempre em condições. Quando comecei, os pianos, a maioria, estava em estado lastimável. Agora, não sei o que vai acontecer", avisou.

Por outro lado, Márcio Vargas explicou que é "cada vez mais requisitado" para serviços no continente, porque existem "poucos afinadores de piano" certificados em Portugal.

Com especialização em pianos verticais e de cauda obtida na Alemanha, Márcio Vargas já teve trabalhos na Alemanha, Bélgica e Espanha, e trabalhou com vários pianistas, como Vladimir Viardo, Pavel Gililov, Oleg Marchev, Mário Laginha ou António Rosado.

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