Turismo açoriano. Entre o sucesso e a sustentabilidade ambiental

No colóquio promovido pela Associação das Casas Açorianas foi vincado que a oferta turística da região terá de privilegiar a qualidade e a preservação dos recursos naturais.

A linguagem dos números é eloquente: segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), as dormidas de caráter turístico registadas nos primeiros nove meses deste ano "já superaram o valor registado para a totalidade do ano de 2020". Todas as regiões do país apresentaram um crescimento assinalável, mas o maior destaque vai para as regiões autónomas, os Açores com mais 106,3% e a Madeira com mais 45,8%.

Perante isto, o que fazer? Surfar a onda favorável ou travar a possível euforia dos agentes turísticos com a urgência da sustentabilidade ambiental? Questões como estas dominaram o colóquio promovido pela Associação das Casas Açorianas, que decorreu entre 25 e 27 de novembro na ilha do Pico. "Temos de admitir que os Açores são um santuário de natureza e que assim pretendemos continuar", disse Gilberto Vieira, presidente desta associação, ao DN. "Não podemos cair na tentação de responder a uma procura massiva. Este encontro serve também para pensarmos em conjunto que rumo queremos tomar e quais as estratégias que podemos definir", acrescentou.

Ao longo dos dois dias de trabalhos, vários especialistas em turismo e em sustentabilidade ambiental debateram com autarcas, representantes do governo regional e com o público, estas e outras questões. Uma delas de crucial importância: sendo o arquipélago um destino insular, só acessível por via marítima ou aérea, como compensar as inevitáveis emissões de carbono? Uma vez mais, Gilberto Vieira aposta na qualidade da oferta: "Os açorianos têm uma longa experiência de relação sustentável com o ambiente. Ninguém melhor do que eles para saber preservar o que têm. Se proporcionarmos essa experiência secular a quem nos visita, todos temos a ganhar."

Essa é a aposta da Associação de Casas Açorianas, constituída em rede para uma mais eficaz promoção da oferta. De São Miguel ao Corvo, há dezenas de propostas muito diversas entre si, desde quintas a solares urbanos, passando por espaços de grande riqueza patrimonial (como o Convento de São Francisco, em Vila Franca do Campo) ou de puro usufruto da paisagem como os moinhos da Graciosa.

Para Gilberto Vieira, o que une todas estas propostas tão diversas, são justamente as boas práticas ambientais: "Para integrar a nossa rede há que obedecer a vários critérios. Todas as unidades são responsáveis na reciclagem de resíduos e na utilização da água, por exemplo. E procuramos sensibilizar os nossos hóspedes para o respeito por essas práticas."

Mas se a questão ambiental, mais do que um ponto de honra, é uma inevitabilidade ditada pela urgência, como atrair turistas sem pôr em causa estes princípios? Como passar a mensagem, partindo da certeza de que em 2020, e provavelmente em 2021, a maior parte dos visitantes eram do continente? Uma hipótese levantada no debate sobre os conteúdos de promoção turística é a inflação dos preços, mas a questão não é pacífica e a discussão ficou em aberto. O tempo urge até porque os Açores são uma das candidaturas portuguesas a Capital Europeia da Cultura em 2027, com tudo o que isso implica em termos de procura e exposição ao mundo.

Manter a fasquia da qualidade

A qualidade da mensagem passa também por uma coordenação eficaz de todos os agentes no terreno. Entre as preocupações de Gilberto Vieira, conta-se o facto da transportadora aérea regional - a Sata - ter posto fim ao serviço de encaminhamento gratuito interilhas para não residentes no arquipélago. "É uma situação que agrava muito os preços da viagem, o que nos pode tornar menos competitivos do que outros destinos", refere.

Observador atento dos trabalhos, embora a sua unidade - a Aldeia da Fonte, nas Lages do Pico - não faça parte desta rede, Simas Santos é um pioneiro do turismo de natureza nos Açores e acredita que sustentabilidade significa "não baixar a fasquia da qualidade em nome da quantidade e do lucro imediato."

Criada há 25 anos, quando a sustentabilidade ainda era um conceito remoto, a Aldeia da Fonte, composta por 40 "cabanas", com capacidade para 96 camas, nasceu de uma certa "vocação hippie" assumida do seu proprietário e criador, médico de profissão: "Há 30 anos tudo isto eram terras de vinha abandonadas, a que dei um ordenamento e uma função", conta-nos. "Nunca tive a intenção de criar uma unidade hoteleira convencional, com centenas de quartos, até porque a ilha do Pico não a comportaria. Creio que acabámos por conseguir criar um lugar muito bem integrado na paisagem, quase um segredo bem guardado."

Para o sucesso, que em 2021 conseguiu já recuperar uma boa parte da faturação pré-pandemia, contribui também a reputação do restaurante Fonte Cuisine, disponível para hóspedes e não só. "Creio que conseguimos combater o preconceito do público em relação aos chamados restaurantes de hotel." O Fonte Cuisine que, entre outros feitos, foi inovador ao introduzir no Pico o buffet de comida chinesa, especializou-se mais recentemente na chamada nova cozinha açoriana. No menu não faltam o polvo do Pico, as lapas, o naco de atum ou o bife de novilho. Tudo isto regado pelos vinhos da ilha do vulcão adormecido.

dnot@dn.pt

O DN viajou para os Açores a convite da Associação das Casas Açorianas.

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