Só é preciso um computador para visitar o Mosteiro de Leça do Balio

O monumento está a ser submetido a um processo de reabilitação que tem previsão de conclusão na Páscoa de 2023. Até lá, os trabalhos, que têm a orientação do arquiteto Álvaro Siza Vieira, podem ser acompanhados de uma forma interativa no mundo virtual.

O Mosteiro de Leça do Balio, que faz parte do itinerário dos Caminhos de Santiago, adquiriu uma nova vida em tempos pandémicos: uma vida virtual.

Adquirido em 2016 pelo Grupo Lionesa, o monumento está a ser submetido a um processo de reabilitação, sob a orientação do arquiteto Álvaro Siza Vieira, que conta com um projeto simbiótico entre três zonas principais: o mosteiro, uma escultura do arquiteto e o jardim filosófico idealizado por Sidónio Pardal, o mesmo que desenhou o Parque da Cidade do Porto.

Este investimento pretende que, ao visitar o Mosteiro, se possa realizar "uma viagem pela arte em três categorias: a história de Portugal, a arquitetura contemporânea e os caminhos de Santiago".

Para o historiador Joel Cleto, que dá voz ao projeto, " este reúne pela primeira vez o trabalho conjunto de dois dos maiores nomes da arquitetura portuguesa, neste extenso parque verde modelado por Sidónio Pardal em diálogo com a obra do Álvaro Siza Vieira e as instalações que serão feitas".

Esta simbiose permitirá ao visitante desfrutar de uma viagem introspetiva, com grande ligação aos caminhos de Santiago, que são "cada vez menos feitos com motivações religiosas", sendo antes um momento de "reflexão espiritual", destaca Francisca Pedro Pinto, responsável pela Associação Monasterium, entidade responsável pela programação cultural do primeiro monumento de estilo gótico construído em Portugal.

A reabilitação do mosteiro pretende "resgatar a essência da caminhada de introspeção, reinventado os indutores associados e funcionando como um ponto de partida para quem pretender fazer a viagem", acrescenta. E, "quem sabe, ajudar à criação do Caminho da Arte até Santiago", sublinha.

Da necessidade de ter uma ferramenta de auxílio para acompanhar o projeto e de ajudar os professores locais a tornarem as aulas via zoom mais atrativas e interativas para os seus alunos, surge assim o projeto da visita virtual 360 graus ao Mosteiro, que pretende "devolver o monumento aos habitantes de Matosinhos".

Esta visita virtual permite acompanhar de modo dinâmico o estado atual do Mosteiro de Leça do Balio contrapondo com a reabilitação orientada por Siza Vieira. A digitalização do património no seu estado atual permite conservá-lo para memória futura, bem como demonstrar que o projeto de reabilitação se compromete a preservar essa memória.

Forma de estimular as visitas

Com orientação de Joel Cleto foram definidos 21 pontos de interesse durante a visita com formato de vídeo, texto e imagem. Os hotspots, como são apelidados, permitem ao visitante interagir e descobrir mais sobre a história do Mosteiro de Leça do Balio e a escultura do arquiteto Siza Vieira - o Templo - ligados pelo Jardim Filosófico que está a ser implementado.

"Atrevo-me a dizer que deve ser o primeiro monumento nacional a ver o seu património perpetuado deste modo. Para nós, é um exemplo dinâmico da promoção da história de Portugal - Templo Romano, Fixação da Ordem do Hospital, primeiro casamento por amor, Terramoto de 1755, Cerco do Porto... até hoje - e proporcionará uma experiência única para as escolas, sublinhando o papel de Matosinhos na História de Portugal e nos caminhos de Santiago", sublinha Francisca Pinto.

A responsável pela Associação Monasterium acredita ainda que a presença do historiador Joel Cleto é uma mais valia para o projeto, pois acrescenta o cunho de historiador e permite que se definam os pontos históricos essenciais que devem ser preservados, sendo deste modo um auxílio muito importante não só para a comunidade em geral, que pretende fazer a visita virtual, mas sobretudo para os estudantes do concelho.

Quando questionada se as visitas virtuais podem substituir a deslocação ao espaço físico do monumento, Francisca Pinto não acredita que isso possa a vir a acontecer. "A visita virtual pode funcionar apenas como impulsionadora para uma visita presencial", sublinha. Mesmo acreditando que os jovens procuram, neste momento, outro tipo de experiências e o seu foco de atenção varia muito mais rapidamente, "nada substitui o contacto direto com a história e com toda a experiência imersiva associada".

Com data de abertura ao público prevista para a Páscoa de 2023, o projeto digital do Balio "poderá ser reinventado" e incluído "nas visitas presenciais". Até lá, a reabilitação do monumento pode ser acompanhada através do écran de um computador.

dnot@dn.pt

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