Sindicato fala em "jogo do empurra" e alerta para eventual falhanço da Carris Metropolitana

Na sexta-feira arranca o novo serviço de transportes nos concelhos de Almada, Seixal e Sesimbra, que o presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos de Portugal garante que será o teste decisivo para avaliar o sucesso do projeto. Ao mesmo tempo, lamenta o adiamento para janeiro da operação a norte do Tejo.

Ana Meireles
© MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

É já na sexta-feira que entra em funcionamento a Carris Metropolitana nos concelhos de Almada, Seixal e Sesimbra (Área 3). Um marco que, para Fernando Fidalgo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos de Portugal (STRUP), será determinante para o sucesso deste novo modelo de transportes públicos rodoviários da Área Metropolitana de Lisboa. "Se, por acaso, as coisas correrem mal com a TST [Transportes Sul do Tejo], começo a pensar que estaremos, de facto, perante um falhanço geral da Carris Metropolitana", diz ao DN.

A Área 3 será operada pela TST, mas tudo aponta, neste momento, para que as coisas corram bem. "Segundo as informações que temos, esta empresa está perfeitamente apta a desempenhar a totalidade o plano da Transportes Metropolitanos de Lisboa em matéria de serviços à população", revela.

O mesmo já não se pode dizer do que aconteceu depois de 1 de junho, quando arrancou a operação na Área 4, que compreende os concelhos de Alcochete, Moita, Montijo, Palmela e Setúbal, que está a cargo da transportadora Alsa Todi. "O problema principal na Área 4 foi a não preparação dos motoristas para os novos serviços e os novos percursos. No dia 6 de junho, os trabalhadores foram confrontados com a distribuição de um conjunto de novos serviços apresentados em castelhano, língua que os trabalhadores não são obrigados a dominar. Mas o principal problema nem era o castelhano, era que os motoristas não conheciam os percursos e a empresa não estava com capacidade de resposta para colocar em cada autocarro alguém a quem fosse ensinado o percurso. E isto levou a que os trabalhadores tivessem realizado uma paralisação espontânea e ninguém tivesse iniciado o serviço", recorda o dirigente do STRUP.

Fernando Fidalgo fala em "jogo do empurra" quando confrontado sobre o responsável por estes contratempos, se a Alsa Todi ou a TML, que gere a Carris Metropolitana. "Questionada a administração da Alsa Todi em relação ao que estava a acontecer, esta não retirou razão aos trabalhadores e informou os sindicatos que na sexta-feira anterior [3 de junho], a TML ter-lhes-ia enviado um conjunto de alterações de serviços que eles tiveram de trabalhar em Madrid, onde fica a sede da empresa, daí as chapas terem vindo em castelhano. A administração da Alsa remete responsabilidades para a TML, ouvida a TML esta remete para os operadores... Temos aqui o habitual jogo do empurra e não conseguimos aferir a quem cabe a responsabilidade", resumiu. A estes problemas de serviço, juntaram-se ainda outros, entretanto resolvidos, sobre o número de horas diário de condução dos motoristas e os intervalos para refeições.

Na altura, a solução encontrada para resolver o problema da formação dos motoristas na Área 4 foi interromper a operação da Alsa Todi até ao final do mês, retomando os percursos e horários que a TST já operava naqueles concelhos. Uma tarefa facilitada pelo facto de cerca de 80% dos motoristas da Alsa Todi terem vindo da TST. Segundo o dirigente do STRUP, a operação da Alsa Todi seria entretanto retomada ontem em vez de na próxima sexta-feira.

Estes contratempos na Carris Metropolitana levaram a que o Portal da Queixa recebesse, entre 1 e 22 de junho, 63 reclamações contra a empresa, sendo que o principal motivo reportado está relacionado com o incumprimento de horários. Em alguns casos, foi mesmo denunciada a falha total dos serviços.

Sem desculpas para adiamento na margem norte

Na semana passada foi confirmado o segundo contratempo na Carris Metropolitana. A operação na Área 1 (Amadora, Oeiras e Sintra) e na Área 2 (Mafra, Loures, Odivelas e Vila Franca) também prevista para arrancar na próxima sexta-feira foi adiada para 1 de janeiro de 2023. Um adiamento que, segundo a TML explicou em comunicado, se deve a "razões da responsabilidade dos operadores prestadores de serviço" nestas duas áreas, a Viação Alvorada e a Rodoviária de Lisboa, respetivamente. "A falta de um número bastante significativo de viaturas novas, a inexatidão nas datas da sua disponibilidade e a adequação dos sistemas de informação necessários à prestação do serviço de acordo com os requisitos do caderno de encargos e dos contratos firmados para as Áreas 1 e 2 são, entre algumas outras, as razões principais identificadas para que se considere que o serviço não está em condições para ser colocado em prática", defendeu a Transportes Metropolitanos de Lisboa, que gere a Carris Metropolitana.

Até janeiro, os serviços nestes concelhos manter-se-ão como até aqui. Lisboa, Cascais e Barreiro entram na operação na Carris Metropolitana apenas como interfaces de ligações intermunicipais, pois vão manter os seus serviços de transportes rodoviários municipais - Carris, MobiCascais e Transportes Coletivos do Barreiro.

Fernando Fidalgo admite que nas Áreas 1 e 2 o problema do adiamento não é relativo à formação dos motoristas e, mesmo que fosse, não obrigaria a uma suspensão tão prolongada pois a Alsa Todi resolveu esta questão em cerca de duas semanas. "Todo este projeto está a ser trabalhado há "n" tempo. Não há desculpas para o que está a acontecer nas Áreas 1 e 2. Há aqui erros que têm de ser assumidos por alguém, não sei se pela TML, se pelos respetivos operadores, não sabemos e não nos compete fazer essa análise. O que sabemos é que uma atividade que deveria arrancar praticamente em simultâneo em toda a Área Metropolitana de Lisboa não vai arrancar", acusou o líder sindical.

O DN tentou obter esclarecimentos junto da Transportes Metropolitanos de Lisboa, mas sem sucesso até à hora de fecho desta edição.

ana.meireles@dn.pt