A nómada digital de Videmonte

Andreia Proença voltou às origens com a pandemia, mantendo a sua atividade profissional à distância. Encontrou a tranquilidade da aldeia, mas sente falta do café com os colegas de trabalho.

Fica num alto, mesmo lá em cima, no monte. Por isso a aldeia de Videmonte faz juz ao nome. A povoação destaca-se no horizonte e é visível a muitos quilómetros de distância. Chegámos à freguesia onde se situa o ponto mais alto da Guarda. Ao lado da igreja de São Baptista, junto ao café, onde ao fim de tarde se juntam os habitantes para conversar ou discutir questões importantes, como por exemplo os resultados do jogo de futebol ou a nova alfaia agrícola do vizinho, espera-nos Andreia Proença.

Com 26 anos está aqui refugiada de uma pandemia que tanto afeta a cidade grande como a mais pequena aldeia. A diferença é que aqui existe, segundo Andreia, um porto seguro e uma oportunidade para estar próxima da família: "Esta sempre foi a minha casa, mesmo quando estava a viver no Porto", explica. Cresceu aqui, até sair para a Invicta, onde estudou e depois começou a trabalhar. Nos últimos quatro anos faz gestão de produto numa das empresas portuguesas chamadas de unicórnio. São companhias que, muitas vezes, começaram como startup e que combinam inovação com o investimento tecnológico em plataformas digitais para atingir um volume de negócios na ordem dos mil milhões de dólares. Estas empresas no nosso país são raras pelo modelo de negócio e pelo dinheiro que geram.

No seu dia-a-dia, articula através de plataformas digitais quais as necessidades de clientes e organiza serviços e equipas para disponibilizar esse produto: "O meu trabalho é à volta de códigos que utilizamos para fazer ponte entre clientes e as equipas de desenvolvimento de plataformas".

Um processo que exige concentração, rapidez de decisão e uma boa ligação à internet. Mas, depois de um ano e meio a trabalhar em casa, não é só a internet que falha. Também escasseiam as relações sociais que se estabelecem no ambiente de trabalho: "Perde-se o espírito de equipa". Sente falta daqueles momentos de pausa do café com os colegas ou de ir ao fim do dia beber um copo ao Café Candelabro, ali bem no centro do Porto. "Agora é tudo muito impessoal", relata.

Mas isso pode estar prestes a mudar. Esta é uma das quarenta e uma povoações que pertence à rede de Aldeias de Montanha, uma associação que se estende entre o Parque Natural da Serra da Estrela e a Paisagem Protegida da Serra da Gardunha, através de nove municípios. Além de melhorar as condições existentes nas povoações, esta rede pretende estimular o seu desenvolvimento. Um dos projetos em marcha neste momento é o Cowork Rural, com a instalação em algumas destas aldeias de espaços com boas condições físicas e bem equipados tecnologicamente para que possam ser partilhados. Num cenário ideal, a associação espera desenvolver condições para os que aqui vivem e para os que aqui querem ter uma vida mais tranquila, sem abdicar dos trabalhos que têm nas grandes cidades. O teletrabalho abriu a porta a muitos para que possam continuar ligados, fora dos grandes centros urbanos, mas o objetivo também é que novos habitantes com projetos individuais se sintam atraídos por este território. E que, tendo condições, possam vir viver nestas paragens.

Criar estes espaços de trabalho no ambiente de aldeia também proporciona o envolvimento das comunidades locais. São estas comunidades que dão o suporte e mantêm estes espaços numa espécie de envolvimento das comunidades com esta geração digital.

Uma das maneiras encontradas foi envolver a população local no processo de escolha, reabilitação e decoração destes espaços. Em Videmonte, é uma antiga casa que servia de apoio aos caminhantes que passavam por aqui e Andreia mal pode esperar para que seja inaugurado. "Tenho necessidade de estar com pessoas", explica. Nesta aldeia tem "descanso, família e a possibilidade de estar na natureza", enquanto não é possível retomar a vida social que tinha no Porto.

Andreia vê neste espaço uma oportunidade para estar na companhia de outros que, como ela, carecem desse contacto. Crê que no futuro as empresas vão optar por um cenário misto, em que se possa alternar entre um período de trabalho no escritório e outro em teletrabalho. Não tem dúvida que o trabalho na aldeia de Videmonte ficará a ganhar se tiver um sítio com as características do Cowork Rural, que dê condições a outras nómadas digitais que como ela procuram manter os seus trabalhos digitais, mas com um registo mais íntimo de contacto com as suas raízes. Como nos explica Andreia, "aqui na aldeia assento e equilibro. Existe aqui uma tranquilidade que não existe na cidade".

Videmonte

Freguesia do município da Guarda, com 53,92 km quadrados de área e 478 habitantes. Fica 22 km de distância da sede de cocelho e é também onde se situa o ponto mais alto do município.

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