Violência converteu Mondelane em professor das crianças deslocadas 

Mondelane João, 27 anos, saiu do distrito de Muidumbe, em Cabo Delgado, em novembro do ano passado, quando os terroristas entraram na região. Hoje dá aulas em Pemba.

A violência fez de Mondelane João deslocado em Pemba, um professor da primária que reencontrou a família, adaptou-se a uma vida diferente e dá aulas às crianças que, como ele, foram forçadas a fugir de casa. Mondelane, 27 anos, saiu do distrito de Muidumbe, em Cabo Delgado (norte de Moçambique), em novembro do ano passado, quando os terroristas entraram na região. "Tinha uma viagem para Pemba. De repente, quando saí da minha aldeia, que é em Muambula, fui até ao cruzamento de Muatide, quem vem de Namacande, que é a sede do distrito, diretamente para a estrada que vai para [o distrito de] Mueda. Quando cheguei a Muatide, esses grupos armados estavam no cruzamento. Não voltei mais, fui diretamente até Mueda", descreveu.

À Lusa recordou que ficou até final de novembro sem saber da família, que estava separada na aldeia, uns na machamba (horta), outros em diversas atividades, quando os terroristas entraram em Muidumbe. Quando chegou a Pemba não perdeu tempo e começou logo a tentar encontrar os familiares. "Andei a comunicar até conseguir salvar a minha família", contou.

Reunida a família, colocou-se um outro desafio: o de refazer a vida, mas "não está fácil", já que a fome e a cólera são um problema presente. Voltar a Muambula é um desejo, mas não está nos planos a curto prazo. "Gostaríamos de voltar à nossa aldeia, mas não temos como. Quase a maioria dos que saíram de lá gostariam de voltar", lamentou.

O professor falou com a Lusa nos minutos finais do intervalo entre as aulas de uma das escolas primárias do bairro de Mahate, em Pemba. Com oito salas de aula, distribuídas por três barracões, esta escola é frequentada por quase 2 mil estudantes do ensino básico, dos quais 500 são crianças deslocadas, identificáveis pelos saquinhos cor de laranja e as máscaras feitas de capulana. Mondelane João está encarregue de ensinar 60 crianças, cinco delas deslocadas dos distritos de Muidumbe, de onde o professor é natural, Mocímboa e de Palma.

Ser bilingue é imprescindível para conseguir ensinar as crianças deslocadas pela violência desencadeada há mais de três anos em Cabo Delgado, uma vez que há muitos alunos que apenas falam as línguas maconde, quimuane e macua.

A língua não é obstáculo, mas a falta de espaço dificulta a aprendizagem, ainda para mais em plena pandemia. "As salas são poucas, os professores são muitos, os alunos são muitos. Há salas em que entram dois professores ao mesmo tempo, o que não pode ser, porque estamos em momento de epidemia. A orientação não era essa. Estamos a tentar evitar a doença", explicitou.

Pelas 10h30 a maioria das crianças já se encontrava à porta das respetivas salas de aula. Nesta escola não há campainha para as avisar, mas não era necessário. Apenas um grupo de cerca de 14 alunos estava debaixo de uma árvore, a abrigarem-se do sol enquanto aguardavam pela entrada da professora.

Apesar de ter ultrapassado em demasia a lotação, um voluntário do projeto Karibu, que ajuda na integração escolar das crianças deslocadas, referiu que no bairro de Mahate deverá haver cerca de 7 mil crianças que fugiram de algumas das zonas de conflito que ainda não têm acesso à escola. As que têm nem sempre vão além da primária, porque a secundária mais próxima está a seis quilómetros.

A violência desencadeada há mais de três anos na província de Cabo Delgado ganhou uma nova escalada há cerca de duas semanas, quando grupos armados atacaram pela primeira vez a vila de Palma, que está a cerca de seis quilómetros dos multimilionários projetos de gás natural.

Os ataques provocaram dezenas de mortos e obrigaram à fuga de milhares de residentes de Palma, agravando uma crise humanitária que atinge cerca de 700 mil pessoas na província, desde o início do conflito, de acordo com dados da ONU.

O movimento terrorista Estado Islâmico reivindicou na segunda-feira o controlo da vila de Palma, junto à fronteira com a Tanzânia, mas as Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas reassumiram completamente o controlo da vila, anunciou na segunda-feira o porta-voz do Teatro Operacional Norte, Chongo Vidigal, uma informação reiterada nesta quarta-feira pelo presidente moçambicano, Filipe Nyusi.

Vários países têm oferecido apoio militar no terreno a Maputo para combater estes insurgentes, mas, até ao momento, ainda não existiu abertura para isso, embora haja relatos e testemunhos que apontam para a existência de empresas de segurança e de mercenários na zona.

Jornalistas da Lusa

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