Uma expedição ao "fim do mundo" para estudar as alterações climáticas

Cientistas chilenos fizeram uma incursão num dos bastiões da biodiversidade do planeta e recolheram amostras de organismos, desde vírus microscópicos a fezes de baleias, em busca de respostas para os desafios climáticos

Nas águas do chamado "fim do mundo", no extremo sul do continente americano, um dos lugares mais remotos da Terra, uma expedição de 19 cientistas chilenos rastreou praticamente todos os organismos que encontrou, de microscópicos vírus a imponentes baleias, em busca de importantes pistas sobre os efeitos das alterações climáticas. Os investigadores apelam aos líderes locais para que intensifiquem os esforços neste combate.

A expedição fez parte de um grande estudo sobre os impactos das alterações climáticas liderado pelo Centro de Investigação Dinâmica do Ecossistema Marinho de Alta Latitude (IDEAL) e procurou investigar organismos prejudiciais e como eles estão a impactar os ecossistemas.

A região de Magalhães, no Chile - no extremo sul da América do Sul, onde os oceanos Atlântico e Pacífico se encontram - é vulgarmente conhecida como o "fim do mundo" e estende-se de Punta Arenas, através do estreito de Magalhães (assim batizado em honra do navegador português Fernão de Magalhães, que o atravessou na primeira viagem de circum-navegação, em 1520), até ao canal de Beagle.

O cenário é espetacular, mas a maioria dos cientistas não tem tempo para a contemplação. Navegando ao longo de estreitos rodeados por glaciares e com os pássaros a vigiar desde o alto, os cientistas a bordo do navio de pesquisa oceanográfica Cabo de Hornos concentraram o seu foco nas águas da região, que tem níveis mais baixos de acidez, sal e cálcio do que outros mares e oceanos, especialmente nas suas partes mais rasas.

Os investigadores acreditam que as condições encontradas nestas águas se replicarão também noutras partes do mundo ao longo das próximas décadas, à medida que o impacto das alterações climáticas aumentar."Os planos regionais de mitigação e adaptação às mudanças climáticas estão desatualizados em relação ao que está a acontecer no meio ambiente", disse à AFP José Luis Iriarte, chefe da expedição. "O ambiente está a mudar mais depressa do que nós, sociedade, estamos a responder a isso."

A missão científica deu atenção especial às "marés vermelhas" - proliferação de algas nocivas que podem tornar o mar vermelho. Foram registadas pela primeira vez na região de Magalhães há meio século e, desde então, foram responsáveis pela morte de 23 pessoas e intoxicaram mais de 200. Com o avanço do aquecimento global, muitos glaciares da Patagónia derretem em grandes quantidades de água doce nos mares. Algumas variações no pH ou nível de salinidade já foram observadas, principalmente em águas superficiais. Mas "não sabemos como os organismos e especificamente os microrganismos vão responder a estes efeitos", admite Iriarte.

A expedição parou em 14 locais, recolhendo amostras de água em diferentes níveis de profundidade até 200 metros. Os cientistas também recolheram amostras de solo e vasculharam ainda as margens em busca de algas e moluscos.

Do ponto mais alto do barco, o biólogo marinho Rodrigo Hucke, um dos 19 cientistas da expedição, passou horas a inspecionar a superfície da água. Avistando uma baleia distante, dava o sinal e saltava para uma pequena lancha para tentar aproximar-se o mais possível do gigantesco mamífero na tentativa de recolher as suas fezes, com o objetivo de identificar mudanças na sua dieta.

Hucke diz que tem havido uma falta de ação histórica por parte dos governos no que diz respeito aos oceanos, que cobrem 70% da superfície do planeta. E espera que a próxima Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática - COP27, no Egito - marque uma "verdadeira transformação global na forma como os oceanos são administrados".

A expedição termina ao fim de nove dias e os cientistas deixam para trás o que Hucke acredita que pode tornar-se "um dos últimos bastiões da biodiversidade na Terra". De volta aos laboratórios, eles levarão meses para concluir o processamento e encontrar as respostas que foram buscar no fim do mundo. "Acho que somos a voz do que a natureza não pode dizer", diz Wilson Castillo, estudante de bioquímica que, aos 24 anos, é o membro mais jovem da expedição.

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