Trump volta ao palco entre o delírio de um golpe em agosto e 2024 

Círculo de apoiantes propaga teorias sobre o regresso de Trump à Casa Branca por via de recontagem de votos ou de golpe militar enquanto conselheiros querem que faça oposição a Biden.

Dias depois de acabar com um blogue em seu nome que durou 29 dias, bloqueado nas redes sociais - na véspera o Facebook anunciou que irá manter a sua conta suspensa por dois anos - e longe dos grandes meios de comunicação, Donald Trump regressa hoje a um palco, desta vez para falar aos republicanos da Carolina do Norte.

O discurso é aguardado com expectativa por parte dos dirigentes do partido, desejosos de um tiro de partida para o ciclo eleitoral que se aproxima, as eleições intercalares de 2022. No entanto, os planos do ex-presidente e os do Partido Republicano nem sempre estão alinhados e se os seus conselheiros querem que ataque Joe Biden e as suas políticas, o próprio pode estar mais interessado em continuar a bater na tecla das eleições "roubadas" e a dar alento a uma teoria da conspiração que o dá de volta à Casa Branca em agosto, ou a mostrar-se como possível candidato às eleições presidenciais de 2024.

A empresa Cyber Ninjas está a analisar cada boletim de voto do condado de Maricopa para ver se há vestígios de bambu, 'prova' de fraude vinda da China.

Na convenção estadual do partido, a decorrer na pequena cidade de Greenville, ninguém do seu campo político acredita que Trump irá focar-se apenas no futuro; desconhece-se é o tempo que irá dedicar-se ao passado, quando este não está resolvido na sua cabeça. São várias as fontes que afirmam a sua "fixação" ou "obsessão" pela recontagem de votos que está a decorrer no condado de Maricopa, no Arizona. Um processo tudo menos transparente, sob ordens do Senado do estado e levado a cabo por uma empresa chamada Cyber Ninjas, cujo administrador, Doug Logan, juntou a sua voz ao movimento pró-Trump Stop the Steal.

A empresa está a analisar cada boletim de voto com luzes ultravioleta e câmaras 5K. O objetivo é descobrir se parte dos boletins têm vestígios de bambu, o que provaria a teoria da conspiração de que parte dos boletins de voto (obviamente os de Biden) teriam vindo da China.

Os democratas boicotaram esta recontagem que não tem quaisquer efeitos legais e a comissão eleitoral, formada por quatro republicanos e um democrata, lamenta o circo montado, depois de feitas duas auditorias e confirmados os resultados. "Quando tudo isto começou, pensei que, se de facto o fizessem bem, talvez pudéssemos ultrapassar isto e realmente aliviar algumas das preocupações", disse o republicano Jack Sellers, presidente da comissão eleitoral. "Mas quanto mais nos metemos nisto, mais percebo que isto está a criar mais caos, mais dúvidas e não resolve nada", desabafou ao Washington Post.

Para Trump e seus apoiantes, uma vitória anunciada pelos Cyber Ninjas teria o efeito dominó de levar a recontagens nos outros estados decisivos. Na segunda-feira, o ex-presidente disse que "está a ser feito um grande trabalho na Geórgia revelando a fraude eleitoral". Um juiz estadual permitiu que um grupo de eleitores possa recontar 147 mil boletins de voto por correspondência.

Segundo fontes próximas citadas pelo Washington Post, Trump terá dito que poderia regressar à Casa Branca ainda este ano. Enquanto alguns conselheiros tentam minimizar estas notícias, Trump continua a dar espaço a todo o tipo de teorias e especulações, ao continuar a reunir-se com o dono da empresa de almofadas MyPillow, Mike Lindell, a advogada Sidney Powell, o ex-conselheiro de segurança nacional Michael Flynn, ou a apresentadora do canal OAN Christina Bobb.

Numa conferência em Dallas que juntou adeptos das teorias de conspiração QAnon, Powell disse acreditar que Trump vai ser "restituído" no cargo de presidente, enquanto Flynn, antigo militar, questionado se poderia acontecer um golpe como o ocorrido na Birmânia, afirmou que "devia acontecer" um nos Estados Unidos. Mais tarde, Flynn, que confessou ter mentido por duas vezes ao FBI sobre as suas ligações à Rússia, deu o dito por não dito.

"Esta espécie de regresso ao futuro está a colocar o Partido Republicano num colete-de-forças de 2020, impedindo-o de aprender com as perdas de 2020 e de se adaptar às mais recentes preocupações dos eleitores", comenta Dan Eberhart, doador do Partido Republicano e crítico de Trump. Uma voz rara num partido que continua dependente de Trump. As alegações de fraude eleitoral levam a que cerca de 70% dos republicanos acredite na falta de transparência da vitória de Biden. Além disso, 66% dos republicanos gostariam de o ver concorrer à reeleição em 2024, embora o mesmo número de norte-americanos prefere que não o faça.

Nos estados com eleições intercalares os candidatos batem-se pelo seu apoio e tem discursos agendados e vários estados. Outros presidenciáveis e convidados para vários eventos são o seu vice Mike Pence, o seu secretário de Estado Mike Pompeo e o senador Tom Cotton. "Ele está definitivamente a preparar o terreno", disse à Associated Press Josh Whitehouse, que trabalhou para a campanha e administração de Trump.

George P. Bush é a exceção do clã

George P. Bush, de 45 anos, lançou na quarta-feira a candidatura para procurador-geral do Texas com uma mensagem em que tece elogios a Donald Trump. Filho do ex-governador da Florida Jeb, sobrinho de George W. e neto de George H.W., pertence a um dos mais poderosos clãs da política norte-americana, e que há muito se incompatibilizou como homem de negócios nova-iorquino. Trump foi particularmente agressivo com o pai de P. Bush quando ambos concorreram nas primárias republicanas em 2015, e também com a mãe, de ascendência mexicana. Mas o filho parece conviver bem com isso, ao usar no material de promoção a frase de Trump "Este é o Bush que está certo".

cesar.avo@dn.pt

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