Torneira do gás russo para Europa está a fechar-se pouco a pouco e ameaça reservas para o inverno

Os países europeus consomem em média 40% do gás procedente da Rússia. Esse percentual é ainda maior em outros países: 55% no caso da Alemanha, e 85%, da Bulgária.

A Rússia fechou a torneira do gás para Polónia, Bulgária e Finlândia, reduziu drasticamente o fluxo para Alemanha, Áustria e Itália, e a França não recebe mais nem um metro cúbico.

No quarto mês de guerra na Ucrânia, o presidente russo, Vladimir Putin, desafia a União Europeia (UE) com cortes de gás considerados como uma "chantagem".

De fato, Moscovo pressiona onde dói mais e joga com a vulnerabilidade energética dos europeus, que consomem em média 40% do gás procedente da Rússia. Esse percentual é ainda maior em outros países: 55% no caso da Alemanha, e 85%, da Bulgária.

Na maioria dos países europeus, a escassez de gás ainda não é sentida, pois em pleno verão não é necessário ligar o aquecimento. Mas é justamente no período de verão que os países costumam reabastecer suas reservas, com o objetivo de armazenar pelo menos 80% até novembro na UE, para fazer face às necessidades no inverno.

Vários países europeus, incluindo Itália e Alemanha, são altamente dependentes do gás russo para as suas necessidades de energia e o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, acusou abertamente a gigante de energia russo Gazprom de mentir sobre os motivos dos cortes.

A Europa usa menos gás nos meses de verão, pois não precisa aquecer edifícios, mas os países costumam aproveitar para reabastecer as suas reservas para o inverno seguinte. A UE quer que as infraestruturas de armazenamento de gás dos seus estados membros sejam preenchidas em pelo menos 80% de sua capacidade até novembro.

O cortedo gás, que eleva os preços, "tem consequências, não imediatamente no consumo, mas no armazenamento de reservas", disse Draghi na quinta-feira, acrescentando que as reservas da Itália estavam em 52%.

A queda nas entregas eleva os preços, o que será caro para as indústrias, especialmente na Alemanha, cujas fábricas, muitas vezes diretamente conectadas a gasodutos, precisam de grandes quantidades de gás nas indústrias química, siderúrgica, de cimento e fertilizantes.

"Os russos usam o gás como arma há muito tempo", disse à AFP Thierry Bros, professor do Instituto Sciences Po de Paris.

"O Kremlin utiliza o princípio da incerteza para analisar a nossa união, pressionar o mercado de commodities e empurrar os preços para cima", acrescentou.

Nesta sexta-feira, a operadora da rede francesa de transporte de gás GRTgaz anunciou que não recebe gás russo por gasoduto desde 15 de junho, com a "interrupção do fluxo físico entre França e Alemanha". O gás russo representa 17% do utilizado na França, aonde chega por gasoduto, ou em forma líquida em navios. A oferta caiu 60% desde o início do ano, segundo a GRTgaz. Desde quarta-feira (15), a oferta foi reduzida a zero.

A GRTgaz não sabe a causa do corte, mas ocorre no momento em que a empresa russa Gazprom reduziu consideravelmente as entregas para a Alemanha através do gasoduto Nord Stream 1.


"Não devemos ter ilusões, estamos em confronto com Putin", disse o ministro alemão da Economia e do Clima, Robert Habeck, na quinta-feira (16), à televisão estatal. "É uma decisão que ele toma arbitrariamente: é assim que ditadores e déspotas agem", acrescentou.

As consequências também são graves para a Itália, que receberá nesta sexta-feira apenas 50% do gás encomendado por sua empresa nacional Eni. A Itália é altamente dependente do gás russo, porque importa 95% do gás que consome. Cerca de 40% das suas compras de gás no exterior foram procedentes da Rússia em 2021.

Na quinta, durante uma visita a Kiev, o chefe do Governo italiano, Mario Draghi, qualificou de "mentiras" as explicações dadas pela Gazprom para justificar a redução da oferta, incluindo operações de manutenção.

"A Gazprom não precisa de nenhuma justificação. É uma decisão política do Kremlin. Está a cortar de forma indiferenciada para quebrar a união europeia", diz o especialista Thierry Bros.

A Europa, que no momento impôs um embargo ao petróleo russo, mas não ao gás, procura fontes alternativas para substituí-lo, mas o próximo inveno talvez venha a ser mais frio do que o habitual no Velho Continente.

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