Putin empurra responsabilidade da tensão na Ucrânia para o Ocidente 

Para o presidente russo são as "manobras provocatórias" de navios no Mar Negro e o fornecimento de drones a Kiev que agravam a situação e não as dezenas de milhares de soldados estacionados junto à fronteira.

No mesmo dia em que a marinha russa voltou a testar um míssil hipersónico no Mar Branco, o seu presidente queixou-se mais uma vez das manobras "provocatórias" no Mar Negro, entre outros recados ao Ocidente, alguns através do porta-voz. O vice-secretário-geral da NATO instou para que Moscovo encete um "diálogo sólido e honesto".

Nos últimos dias, vários líderes têm reafirmado a defesa da integridade territorial e a independência da Ucrânia e outros mostrado preocupação com as movimentações das tropas russas junto da fronteira com o leste ucraniano. Na semana passada, o presidente dos EUA Joe Biden e a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen declararam "apoiar plenamente a integridade territorial da Ucrânia".

Na segunda-feira foi a vez de o presidente francês Emmanuel Macron ter dito ao telefone a Vladimir Putin que o seu país estava pronto a defender a integridade territorial e a soberania da Ucrânia. Um dia depois, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros Jean-Yves Le Drian e o homólogo alemão Heiko Maas assinaram uma declaração conjunta no mesmo sentido. "Qualquer nova tentativa de minar a integridade territorial da Ucrânia teria consequências terríveis", avisaram. Na quarta-feira foi a vez de o primeiro-ministro britânico Boris Johnson ter advertido a Rússia para não cometer o "erro trágico" do aventureirismo militar para com a Ucrânia ou a Polónia.

O porta-voz do Kremlin sugeriu que os europeus deviam "tratar a origem dos problemas que estão atualmente a sufocar a Europa".

O Kremlin respondeu na quinta-feira. O porta-voz Dmitri Peskov notou que "recentemente tem havido muitas publicações histéricas britânicas" e garantiu que a Rússia "não está a travar quaisquer guerras híbridas". Além disso, referiu, "a Rússia tem interesse em que todos na Europa finalmente caiam em si e deixem de considerar a Rússia como o culpado de todos os problemas". E sugeriu que os europeus deviam "tratar as origens dos problemas que estão atualmente a sufocar a Europa".

A comunicação prosseguiu, desta feita pelo próprio Putin. Num discurso realizado no Ministério dos Negócios Estrangeiros, o presidente russo reiterou as queixas de "manobras provocatórias" no Mar Negro. Há três navios da marinha norte-americana no Mar Negro, cujas manobras, disse Putin a Macron, levam a "tensões crescentes" entre Moscovo e a NATO. O próprio reconheceu que tem estado "constantemente a levantar questões" sobre o assunto. "Todos os nossos avisos e discursos sobre as linhas vermelhas têm sido tratados superficialmente", lamenta. "Os parceiros ocidentais estão a agravar a situação, fornecendo a Kiev armas modernas letais e conduzindo manobras provocatórias no Mar Negro", e além do mais observou que bombardeiros ocidentais estão a voar a "20 km da fronteira".

Vladimir Putin também criticou a Ucrânia por utilizar pela primeira vez o drone Bayraktar T2B , de fabrico turco, contra material militar dos rebeldes pró-russos no leste do país. Kiev planeia não só comprar mais dezenas de drones como construir uma fábrica em cooperação com o fabricante turco. Este drone provou a sua letalidade em recentes conflitos, do Nagorno-Karabakh à Líbia.

Não fica por aí o apetite da Ucrânia por mais armamento. As tensões já estiveram elevadas na primavera, quando a Rússia realizou exercícios militares não longe da fronteira ucraniana e, em julho, a NATO mostrou o seu músculo no Mar Negro com a participação de 12 países da Aliança Atlântica, da Geórgia e da Ucrânia, países parceiros.

Kiev e aliados ficaram em alerta perante imagens de satélite e vídeos que demonstram concentração de uns 90 mil soldados russos perto da fronteira. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Dmytro Kuleba, disse que Kiev está em negociações com o Ocidente para "o fornecimento de armas de defesa adicionais". Kuleba, que se deslocou recentemente a Washington e Bruxelas, disse estarem em curso trabalhos para desenvolver um pacote abrangente para a contenção da Rússia.

Noutra frente, o ministro da Defesa Oleksii Reznikov, que recebeu o homólogo britânico Ben Wallace esta semana, disse que se vai avançar a toda a velocidade para a construção de uma base naval no porto de Berdiansk, no Mar de Azov. "Após a ocupação da Crimeia e de partes da Ucrânia oriental, a Rússia está a tentar ocupar de facto também o Mar de Azov", disse Reznikov.

O vice-secretário-geral da NATO Mircea Geoana afirmou que não iria especular sobre as razões por detrás das "atividades invulgares" dos militares russos junto da Ucrânia, mas disse que a NATO está "muito firme na dissuasão e na defesa contra qualquer ameaça de qualquer direção". Em entrevista à Radio Free Europe, Geoana pediu aos russos para regressarem ao Conselho NATO-Rússia e para se empenharem num "diálogo sólido e honesto".

cesar.avo@dn.pt

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