Prémio Sakharov para Navalny e "todos os que não são indiferentes"

Opositor russo é o vencedor do galardão no valor de 50 mil euros, mas haverá uma homenagem às mulheres afegãs, que também estavam na corrida.

Depois do prémio Boris Nemtsov, do Prémio para a Coragem Moral do Fórum de Genebra para os Direitos Humanos e do polaco Prémio Cavaleiro da Liberdade, o opositor russo Alexei Navalny venceu ontem o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, atribuído pelo Parlamento Europeu. "É um prémio para todos os que não são indiferentes e que, até nos momentos mais negros, não têm medo de falar a verdade", reagiu a sua fundação anticorrupção no Twitter. Detido desde janeiro, Navalny não estará presente na cerimónia de entrega do galardão, a 15 de dezembro, em Estrasburgo.

"Navalny mostrou grande coragem nas suas tentativas de restaurar a liberdade de escolha ao povo russo. Durante muitos anos lutou pelos direitos humanos e liberdades fundamentais no seu país. Isto custou-lhe a sua liberdade e quase a sua vida", disse a vice-presidente do Parlamento Europeu, a finlandesa Heide Hautala, no anúncio oficial do vencedor, pedindo "a sua libertação imediata e incondicional" e o fim do "assédio, intimidação e ataques contra a oposição, a sociedade civil e os media" da parte das autoridades russas.

"Navalny tem feito uma campanha consistente contra a corrupção do regime de Vladimir Putin e, através dos seus relatos nos meios de comunicação social e campanhas políticas, tem ajudado a expor abusos e a mobilizar o apoio de milhões de pessoas em toda a Rússia. Devido a isso, foi envenenado e atirado para a prisão", disse numa mensagem o presidente do Parlamento Europeu, o italiano David Sassoli. "Ao atribuir o Prémio Sakharov a Navalny, reconhecemos a sua imensa coragem pessoal e reiteramos o apoio inabalável do Parlamento Europeu à sua libertação imediata", acrescentou.

Envenenado e detido

O dissidente de 45 anos, que liderou os primeiros grandes protestos contra o presidente Vladimir Putin em 2011 e 2012 por alegada fraude eleitoral e depois foi candidato à presidência da Câmara de Moscovo, foi detido em janeiro. Regressava então da Alemanha, onde esteve a receber tratamento médico por ter sido envenenado em agosto de 2020 com o gás nervoso novichok. Navalny e os seus apoiantes acusaram o Kremlin de estar por detrás do ataque, mas o governo russo negou qualquer envolvimento, acusando o opositor de sofrer de "mania da perseguição".

No regresso a Moscovo, o ativista anticorrupção acabaria por ser sentenciado a dois anos e meio de prisão por ter violado a liberdade condicional de uma anterior condenação por fraude, que diz ter tido motivação política. Em abril, o opositor fez uma greve de fome de 24 dias para protestar contra a falta de cuidados médicos na colónia penal onde está detido. Numa entrevista ao The New York Times, disse também ser alvo de "violência psicológica", sendo forçado a ver oito horas de televisão estatal e de filmes de propaganda por dia.

Antes das legislativas de setembro, as autoridades russas apertaram o cerco aos seus apoiantes e a sua fundação, o Fundo de Luta contra a Corrupção, foi considerada "extremista" e a sua desmantelada. Em finais de setembro, Navalny foi acusado, junto com os aliados, de ter "fundado e dirigido uma organização extremista", um crime passível de dez anos de prisão. Desde agosto que também está acusado de apelar aos apoiantes para cometerem "atos ilícitos", podendo ser condenado a outra pena de três anos de prisão.

Honrar as mulheres afegãs

Os finalistas derrotados do Prémio Sakharov foram a ex-presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez (detida desde março sob a acusação de planear um golpe de Estado no país), e um grupo de 11 mulheres afegãs, entre elas a ex-ministra Sima Samar, a diretora da Comissão Afegã Independente de Direitos Humanos, Shaharzad Akbar, ou a jornalista Anisa Shaheed.

Em relação a estas últimas, o Parlamento Europeu prepara também uma semana de atividades para chamar a atenção para a sua situação. "Todas lutaram ferozmente pela igualdade e os direitos humanos e o Parlamento Europeu quer honrar a bravura destas mulheres, já que estão entre as primeiras a sofrer as violações dos seus mais básicos direitos e liberdades depois de os talibãs terem assumido o poder do seu país", indicou Hautala.

Neste ano assinala-se o centenário do nascimento do físico e dissidente soviético Andrei Sakharov, que dá nome ao Prémio para a Liberdade de Pensamento, entregue pelo Parlamento Europeu desde 1988. No ano passado o galardão, no valor de 50 mil euros, distinguiu a oposição democrática bielorrussa ao presidente Alexander Lukashenko, um próximo de Putin.

A vitória de Navalny, que foi nomeado pelo Grupo do Partido Popular Europeu (o maior no hemiciclo) e pelo Renovar a Europa (a terceira força política), deverá ser mais um golpe nas relações já tensas entre a União Europeia e a Rússia - uma situação que remonta à anexação da Crimeia, em 2014.

susana.f.salvador@dn.pt

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