"Portugal tem uma boa experiência em África na procura da paz"

O líder da oposição do Burquina Faso começou em Lisboa uma viagem para sensibilizar os europeus sobre a necessidade de pacificar a região do Sahel.

De passagem por Lisboa pela segunda vez (na primeira, há sete anos, foi para assistir à final da Liga dos Campeões), Eddie Komboigo manteve reuniões com o representante especial de Portugal para o Sahel, José Moreira da Cunha - com o qual se mostrou impressionado pela sua "bagagem" sobre a região - com o presidente da comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros, Sérgio Sousa Pinto, e ainda com o responsável do CDS pelas relações internacionais, Telmo Correia.

Formado em contabilidade e finanças em Paris, Komboigo, de 56 anos, fez carreira na Universidade de Uagadugu e como revisor oficial de contas, até que em 2012 foi eleito deputado pelo Congresso pela Democracia e Progresso, partido do então presidente Blaise Campaoré. Quando este, no poder desde 1987, tentou forçar uma mudança na constituição para concorrer a um novo mandato, estalou uma revolta que levou ao seu exílio.

Komboigo era o candidato às presidenciais de 2015, mas quer ele quer os outros dirigentes do partido ficaram impedidos. Um mês antes das eleições houve uma intentona. Preso, foi acusado de cumplicidade com os golpistas. Quatro meses e meio depois foi libertado e em 2017 foi ilibado. No ano passado concorreu às presidenciais, tendo perdido para o chefe de Estado em exercício Roch Kaboré. É desde março chefe da oposição, um cargo reconhecido institucionalmente na antiga colónia francesa, cujo nome significa o "país dos íntegros".

A que se deve a visita a Portugal?
A União Europeia é atualmente presidida por Portugal. O país está comprometido na pacificação do mundo e em particular na região do Sahel. Portugal apoia a política de Barkhane [operação antiterrorista francesa], a política francesa, e vim falar com o representante português para o Sahel para explicar as dificuldades que temos e pedir o apoio e a experiência de Portugal para se chegar à paz. Sabemos igualmente que Portugal, ao longo dos anos da descolonização, enquanto antigo colonizador, empenhou-se junto dos movimentos de rebelião pela pacificação, através do diálogo. Penso que é uma boa experiência na procura da paz.

"A grande questão é se a luta armada pode vencer o terrorismo. Não creio. O que eu preconizo é um verdadeiro diálogo entre os protagonistas que desejam a paz."

O Burquina Faso está de luto após dois ataques que fizeram mais de 160 mortos. O G5 Sahel e a Operação Barkhane estão a falhar?
A Operação Barkhane está no Mali há cinco anos. Infelizmente, cinco ou seis anos depois, não há solução. A questão coloca-se aos países africanos, o Mali, o Burquina Faso, o Níger, mas também aos países europeus e em especial a França, devido à forte presença militar, e que com a sua estratégia militar, não conseguiram impedir os ataques terroristas. A grande questão é se a luta armada pode vencer o terrorismo. Não creio. O que eu preconizo é um verdadeiro diálogo entre os protagonistas que desejam alcançar a paz.

Os meios são suficientes?
Não são. A França pediu várias vezes apoio a uma operação que custa em cada ano mil milhões de euros. É muito, pelo que temos de trabalhar na mutualização de esforços, na confiança recíproca e no compromisso de todas as partes para a mobilização de recursos. É insuficiente equipar as forças locais de forma suficiente, há que dotá-las de uma estratégia porque é uma guerra assimétrica, em regiões desérticas. Não é fácil para os soldados que não foram formados nessas zonas. Os terroristas sabem da fragilidade e ausência de organização dos exércitos locais e aproveitam-se. Sabe-se também que a fronteira tem mais de mil quilómetros e que se pode passar de uma zona para outra sem encontrar exércitos. Por isso há que procurar a paz pelo diálogo de todos os protagonistas e que passa em primeiro lugar por identificar quem nos ataca. A segunda etapa é compreender porque nos atacam. Depois há que ter a iniciativa de nos sentarmos à mesma mesa. A primeira guerra mundial durou quatro anos e resolveu-se à mesa. Há também que associar a inteligência da diplomacia e da negociação.

Segundo um relatório do International Crisis Group, a insegurança é " sobretudo o resultado de uma profunda crise social que agita os grupos que vivem nos territórios do norte". Concorda? O problema é étnico-religioso?
Não. Os fulani viviam do pastoreio e da criação de gado. Nos primeiros ataques o gado foi pilhado à população fulani. Do que vão viver? Alguns acabam por se juntar a grupos armados. É lamentável, mas é a verdade. O problema sociológico pode existir, mas não penso que seja o único fator. Penso que o problema é sobretudo económico. Não podemos esconder as coisas: naquela zona há indícios da existência de petróleo, gás, urânio, e até ouro. Há que fazer um trabalho de investimento na exploração dos recursos e de assegurar com todos os meios necessários a proteção da região, e dessa forma ajudar a tirar o país da pobreza. Há oito milhões em 20 que vivem em pobreza extrema, menos de um dólar por dia.

Quais as suas apostas para o país?
Antes de mais é alcançar a paz. A primeira ação é necessariamente obter segurança, e sem segurança não há desenvolvimento económico. De outra forma a pobreza e a revolta irão aumentar.

Além da segurança quais as prioridades para a África Ocidental? O desenvolvimento passa mais por aprofundar relações entre países africanos ou pelas relações com os antigos países colonizadores?
Não são exclusivos nem excluo qualquer relação. Há que reequilibrar relações. Se olharmos para os níveis de desenvolvimento dos países europeus e americanos e depois para os africanos é quase revoltante. Os países do G20, da UE, os países asiáticos e a Rússia têm de compreender que ao desenvolvimento económico têm de acrescentar responsabilidade social. Isso deve acontecer em colaboração com as autoridades locais para a exploração de recursos e a industrialização de África. As trocas sul-sul devem crescer, claro, mas deve haver uma consolidação das trocas norte-sul, já não com o antigo modelo, mas num em que haja investimento e criação de valor acrescentado, para estabilizar a população em África e evitar a emigração.

O presidente Kaboré defendeu uma nova constituição. Qual a sua posição?
Se for para retocar alguns artigos, como por exemplo, ao nível penal, ou a exclusão da condenação à morte, sou favorável. Mas a adoção por referendo [de uma nova constituição] não é um debate correto.

No ano passado foi segundo nas presidenciais. O seu partido pagou a fatura da tentativa de eternização no poder de Campaoré?
Não. Hoje temos 70% a 80% de militantes que são jovens, em consonância com a população: em 2025 80% a 85% da população terá entre 0 e 35 anos. O que quero dizer é que a população é muito jovem e as suas referências não são necessariamente relacionadas com o governo anterior, mas de quem lhes proporcionar esperança.

cesar.avo@dn.pt

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