Pena de morte para canadiano na China. Culpado ou vítima da diplomacia de reféns?

Inicialmente condenado a 15 anos de prisão por tráfico de droga, Robert Schellenberg viu a pena agravada num recurso que foi julgado já depois de o Canadá deter, a pedido dos EUA, a filha do fundador da Huawei, cujo processo de extradição está a decorrer.

Um tribunal chinês confirmou ontem a condenação à morte de um cidadão canadiano, acusado de tráfico de droga, e sentenciou a 11 anos de prisão esta quarta-feira um outro, que foi detido em dezembro de 2018 por espionagem. Um terceiro, que responde pela mesma acusação, aguarda também uma decisão judicial. Para o Canadá estes são três casos da chamada "diplomacia de reféns", com Pequim a usar a justiça para pressionar Otava: o objetivo é travar a extradição para os EUA de Meng Wanzhou, a diretora financeira da Huawei (e filha do seu fundador), que é acusada de fraude.

Robert Schellenberg, preso desde 2014, tinha sido inicialmente condenado a 15 anos de prisão. A sua defesa apresentou recurso, na esperança de ver a pena diminuída, mas viu o tribunal decidir o contrário depois de um julgamento de um dia, alegando que a sentença inicial tinha sido demasiado branda. Foi então condenado à morte. A primeira sentença tinha sido proferida antes da detenção de Meng Wanzhou, no aeroporto de Toronto, a 1 de dezembro de 2018. A segunda, veio depois, tal como as detenções do empresário Michael Spavor e do ex-diplomata Michael Kovrig , ambos acusados de espionagem. O primeiro foi condenado esta quarta-feira a 11 anos de prisão por alegadamente passar informação sensível ao segundo, tendo agora duas semanas para recorrer da sentença.

A prisão da filha de Ren Zhengfei, fundador e CEO da gigante de telecomunicações chinesa Huawei, foi feita a pedido dos EUA, que a acusam de fraude bancária e conspiração para cometer fraude, com o objetivo de ultrapassar as sanções norte-americanas contra o Irão. Meng Wanzhou está atualmente em prisão domiciliária, estando a decorrer os argumentos finais em relação ao processo de extradição para os EUA. Na altura da sua detenção, Pequim alertou o Canadá para as "graves consequências" que o gesto poderia ter para as relações entre os dois países.

A decisão de ontem referente a Schellenberg prendia-se com um segundo recurso, após ser condenado à morte. Dois outros canadianos, Fan Wei e Xu Weihong, também foram condenados à morte por tráfico de droga em casos separados, em 2019, numa altura em que as relações entre Pequim e Otava já se estavam a deteriorar.

"Continuamos profundamente preocupados com o uso arbitrário pela China da pena de morte contra Robert Schellenberg", disse o embaixador canadiano na China, Dominic Barton, criticando a rejeição do recurso e indicando que o seu país continuará a providenciar assistência consular. Questionado sobre se os três casos estavam ligados ao de Meng, Barton disse: "Não acho que seja uma coincidência que estejam a acontecer agora, enquanto o julgamento está a decorrer em Vancouver."

Outras "vítimas"

A "diplomacia de reféns" é mais uma das armas do arsenal chinês para responder a ações que vê como um ataque. E o Canadá não é a única "vítima", havendo também cidadãos australianos detidos por Pequim sob acusações de espionagem - é o caso do escritor Yang Hengjun ou da apresentadora de televisão Yang Hengjun. Camberra considera ambas detenções arbitrárias. A Austrália, que nos últimos anos tinha vindo a criticar a influência crescente da China na sua política e que já tinha irritado Pequim por travar a entrada da Huawei nos grandes projetos de telecomunicações, entrou definitivamente na lista negra após exigir uma investigação sobre as origens da covid-19.

Uma das principais armas das autoridades chinesas tem sido contudo a pressão económica. Em 2010, depois de o Comité norueguês ter atribuído o Nobel da Paz ao ativista de direitos humanos, Liu Xiaobo, Pequim praticamente cortou as relações com a Noruega - um dos primeiros países ocidentais a reconhecer, em 1950, a República Popular da China. As negociações para um acordo comercial foram suspensas, as importações praticamente congeladas. Só seis anos depois as relações políticas e diplomáticas entre os dois países foram retomadas - e pelo meio, num gesto visto como conciliatório, o governo norueguês optou por não receber o Dalai Lama (o líder espiritual tibetano é visto como separatista por Pequim).

É também no âmbito comercial que a China tem atacado a Austrália. Em causa estão boicotes às importações de produtos como carvão, cevada, vinho, carne ou marisco. No caso da carne vermelha, por exemplo, em 2019 o volume de exportações da Austrália para a China foi de três mil milhões de dólares australianos (cerca de 1,8 mil milhões de euros). No ano passado, as exportações caíram 30%.

Diplomacia do Lobo Guerreiro

A pandemia de covid-19 e, antes disso, a guerra comercial com os EUA em plena presidência de Donald Trump (ávido utilizador das redes sociais, nomeadamente o Twitter), levou também Pequim a desenvolver a chamada "diplomacia do Lobo Guerreiro". Num memo, o presidente chinês, Xi Jinping, deu ordens aos seus diplomatas para que mostrassem um maior "espírito combativo" nas redes sociais, em resposta aos ataques que vinham de fora.

"Quem ofender a nação chinesa será punido, não importa o quão longe está" é uma das mais emblemáticas frases do filme Wolf Warrior II, a sequela de 2017 do patriótico filme de 2015. O filme mais visto de sempre na China conta a história de um soldado chinês (interpretado por Wu Jing, que é também o realizador), numa zona de guerra em África, que salva centenas de pessoas de uma chacina conduzida por mercenários ocidentais - o vilão Big Daddy é um norte-americano, interpretado por Frank Grillo. O filme inspirou a diplomacia chinesa da nova geração.

Três canadianos presos na China

Robert Schellenberg O canadiano, nascido em 1982 e já com duas condenações por tráfico de droga no Canadá, foi detido pela China em novembro de 2014 por planear levar 222 quilos de metanfetaminas para a Austrália. Ele negou a acusação, mas foi condenado em novembro de 2018 a 15 anos de prisão. No recurso, já depois de o Canadá deter Meng Wanzhou, executiva e filha do fundador da Huawei, os juízes decidiram que pena tinha sido leve e condenaram-no à morte.

Michael Spavor O empresário de Calgary, que conhece pessoalmente o líder norte-coreano Kim Jong-un, foi detido em dezembro de 2018, acusado de espionagem. Fundador da Paektu Cultural Exchange, uma organização não governamental que tem como objetivo fomentar os laços com a Coreia do Norte, organizou a viagem ao país do basquetebolista da NBA Dennis Rodman, em 2013. O veredicto de Spavor foi conhecido esta madrugada: 11 anos de prisão por alegadamente passar informação sensível.

Michael Kovrig O antigo diplomata, nascido em Toronto e residente em Hong Kong, era conselheiro para o International Crisis Group quando foi detido em dezembro de 2018. Em maio de 2019 foi acusado de espionagem, tendo sido julgado a 22 de março de 2021 (três dias depois de Spavor, estando ainda a aguardar o veredicto). Fluente em mandarim, trabalhou no consulado geral do Canadá em Hong Kong e na embaixada em Pequim como primeiro secretário e vice-cônsul entre 2012 e 2016.

(Notícia atualizada às 12.30 com condenação de Michael Spavor)

susana.f.salvador@dn.pt

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